Bastidores

O desafio histórico na gestão da pandemia em João Pessoa

22 de junho de 2020 às 22h57

Uma pandemia é desafio de uma geração. E não é coisa comum. Rara, se repete em séculos. Em comum, os efeitos destruidores. A última, a gripe espanhola, marcou profundamente o mundo.

Enfrentá-la é um grande teste para qualquer povo. Para gestores, imprensados entre as obrigação das medidas sanitárias e as pressões econômicas, tarefa ainda maior.

Quis o destino reservar ao prefeito Luciano Cartaxo, da capital paraibana, essa complexa missão pessoal e política.

Com João Pessoa no epicentro da contaminação, o gestor tinha dois caminhos: seguir os protocolos internacionais e tentar poupar vidas ou optar por uma direção mais politicamente simpática e priorizado a economia.

Com a primeira opção, adotou medidas drásticas com isolamento radical, suspensão de atividades comerciais e circulação de ônibus. Mexeu em dois grandes vespeiros, o setor produtivo e o poderoso sistema municipal de transportes. Atitude que demanda, no mínimo, pulso.

Montou um colchão social para amortecer a pancada nas camadas mais pobres, com abrigo em hotéis para moradores de rua, cestas básicas em comunidades periféricas, refeições para alunos, aumento na oferta dos restaurantes populares. Um lenitivo para quem não tem o mínimo para sobreviver a uma quarentena.

Há problemas? Muitos, especialmente na Saúde, setor que mundialmente vem trocando o pneu com o carro rodando. Poderia ter mais testes? Sim! Mas leitos foram abertos e não se tem notícia de caos e nem de paciente grave sem atendimento. Há controle em meio ao vendaval da atípica situação.

No geral, no maior desafio administrativo do século, o prefeito da capital de quase de 1 milhão de habitantes teve uma postura responsável e equilibrada.

Especialmente, porque, a despeito das diferenças partidárias, soube conviver e articular políticas comuns com colegas da região metropolitana, em sintonia com as orientações dos decretos assinados por um adversário, o governador João Azevêdo.

Entre o dever e o politicamente mais cômodo, a responsabilidade deve falar mais alto do que o preço das incompreensões. As opções feitas revelam que a experiência de governar oito anos a complexa João Pessoa forjou em Luciano – por vezes criticado por hesitações – um gestor maduro e seguro.

Essa impressão é confirmada nessa entrevista publicada no Portal MaisPB.

O prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo (PV), fez um balanço, em entrevista ao Portal MaisPB, dos 100 dias de combate ao novo coronavírus na Capital paraibana.

“Desde o princípio, salvar vidas foi a nossa meta principal. E estamos cumprindo o que foi traçado. Mas, repito, não se pode relaxar um só segundo, porque a ameaça é permanente. Cada passo tem que ser dado com toda cautela, com muita responsabilidade”, avalia o gestor.

Cartaxo comentou, ainda, as críticas que tem recebido pela forma como vem conduzindo o enfrentamento à pandemia.

“Qualquer crítica construtiva é bem-vinda, porque quando se ouve é possível acertar mais, mesmo já acertando muito. Queremos o melhor, sempre. Agora, também existem as críticas que são feitas por outros interesses, nem sempre os mais elogiáveis. Diria até que, observando algumas declarações, parece que algumas pessoas torcem contra, o que é, no mínimo, um absurdo, já que estamos trabalhando pela vida”, pontuou.

Confira a entrevista completa: 

MaisPB – Como o senhor avalia as medidas adotadas até aqui no combate à Covid-19?

Luciano Cartaxo – São 100 dias ininterruptos de uma luta grande, que exige muito de todos nós, não só os governantes, mas a população como um todo. Trata-se de um inimigo comum, que ataca no mundo inteiro e tem desafiado a humanidade. Mas o importante foi sabermos ouvir a ciência, observar a experiência de quem precisou encarar primeiro esta batalha. Isso nos permitiu agir rápido, com planejamento mas sem demora, para abrir todas as frentes necessárias, na prevenção, nos cuidados, na orientação às pessoas. Antes do primeiro caso confirmado aqui já estávamos em campo. Nunca negamos a gravidade do problema, como infelizmente alguns insistem em fazer. Dialogamos com especialistas, adotamos protocolos internacionais, criamos um comitê integrado. Desde o princípio, salvar vidas foi a nossa meta principal. E estamos cumprindo o que foi traçado. Mas, repito, não se pode relaxar um só segundo, porque a ameaça é permanente. Cada passo tem que ser dado com toda cautela, com muita responsabilidade. Todos têm perdas numa crise desta natureza e com esta dimensão, mas precisamos atuar para minimizar a maior perda de todas: a vida. Aí sim, podemos avançar nas outras fases do planejamento, como estamos começando a fazer. Cada objetivo tem sua hora certa. E sua ação adequada.

MaisPB – Quais os principais resultados já alcançados?

Luciano Cartaxo: Sem dúvida, as vidas salvas são o mais importante. Para isso, adotamos todas as medidas necessárias. Até o isolamento social rígido, quando foi preciso. Abrimos leitos e um novo hospital, contratamos profissionais, criamos uma rede de proteção social para os mais vulneráveis. O número de óbitos, que graças a Deus começa a cair, teria sido seis vezes maior. Veja quantas vidas salvas. Evitamos o colapso na rede de saúde e nenhum paciente precisou aguardar na fila de espera por leitos de UTI. A vitória contra a Covid-19 vai sendo construída a cada dia, e será uma conquista da cidade toda. A curva de internações graves também está em queda. Assim fomos preparando João Pessoa para o que se chama de “nova normalidade”. A flexibilização só foi iniciada quando possível, com todos os cuidados que o momento exige.

MaisPB – Então a ação voltada para a rede de saúde foi suficiente?

Luciano Cartaxo: Nenhum sistema de saúde público no mundo estava pronto para enfrentar uma pandemia, uma situação como esta. Mas nós agimos a tempo e com as medidas acertadas, mesmo diante de dificuldades em escala global, como a escassez de aparelhos, medicamentos e insumos. Abrimos 282 novos leitos para combater à Covid-19, reerguemos um hospital que estava desativado, transformamos UPAs e hospitais em unidades de referência no enfrentamento à doença, contratamos quase 500 novos profissionais de saúde e já passamos dos 22 mil atendimentos na Central de Telemedicina. A rede de saúde também recebeu uma nova policlínica e quatro novas USFs apenas durante este período. Mais de 20 mil testes foram realizados, ajudando a conter a propagação da doença. É um trabalho permanente de cuidado e prevenção, que avança todos os dias.

MaisPB – Além da prevenção, com isolamento, por exemplo, e dos cuidados nas unidades de saúde, como ficou a questão do impacto social?

Luciano Cartaxo: Desde as primeiras medidas de distanciamento, nós demos início a uma ampla rede de proteção social. Em março, começamos a distribuir refeições nas escolas e creches, que hoje beneficiam diariamente 65 mil estudantes da rede de ensino. Adquirimos mais de 100 toneladas de alimentos da agricultura familiar, o que é importante para o pequeno produtor e para as famílias cadastradas na rede de assistência da capital. Implantamos uma nova Cozinha Comunitária e hoje oferecemos quase 4 mil almoços, por dia, junto com os Restaurantes Populares. Já havíamos entregue mais de 4,5 mil cestas nutricionais. Agora, com uma ação do João Pessoa Sustentável, chegamos a quase 21 mil, junto com kits de limpeza, dentro de um plano logístico em parceria com as forças armadas que se tornou uma referência no país. A população em situação de rua recebeu leitos em pousadas, auxílio-aluguel e um novo Centro POP. Estas ações continuam, no cuidado com as pessoas que mais dependem da atenção do poder público neste momento de dificuldade.

MaisPB – E o plano de flexibilização recém-iniciado vem alcançando os objetivos?

Luciano Cartaxo: É importante dizer que faz parte do plano uma avaliação permanente do quadro epidemiológico. Cada decisão é tomada com base em critérios técnicos, científicos, como a redução na pressão hospitalar, a queda na taxa de transmissão, além da diminuição na taxa de ocupação dos leitos de UTI. Cada fase é monitorada, assegurando toda a segurança possível. No mês de maio nós havíamos enfrentado um período crítico, que vai sendo superado mas não podemos deixar que ele volte. Eu sempre reforço: não podemos colocar a perder tudo o que conseguimos até aqui. Precisamos avançar gradativamente, para que seja um avanço sem retrocessos. É este o horizonte de reabertura gradual. Seguimos absolutamente atentos. A proteção não deixou de ser uma atitude imprescindível. Evitar sair, se sair de casa, sempre usar máscaras, cumprir todas as regras de higiene, o distanciamento indicado, tudo isso é fundamental para que os números continuem melhorando, o que significa salvar vidas e ir retomando as atividades econômicas e sociais, aos poucos.

MaisPB – E como o senhor encara as críticas ao trabalho?

Luciano Cartaxo: Nós sempre fomos adeptos do diálogo e da construção coletiva. Este modelo de gestão foi avaliado, aprovado, teve sequência por decisão da grande maioria da nossa população e, graças a muito trabalho e tantos resultados, que mudaram a nossa capital de patamar, seguimos com um apoio fundamental dos pessoenses. Qualquer crítica construtiva é bem-vinda, porque quando se ouve é possível acertar mais, mesmo já acertando muito. Queremos o melhor, sempre. Agora, também existem as críticas que são feitas por outros interesses, nem sempre os mais elogiáveis. Diria até que, observando algumas declarações, parece que algumas pessoas torcem contra, o que é, no mínimo, um absurdo, já que estamos trabalhando pela vida. Numa guerra dessas, queremos que todos ganhem. Depois, que venham as outras disputas. No momento, lutamos pela vida. E vamos seguir. Nenhuma crítica que seja feita com má-fé, seja mal-intencionada, motivada por interesses individuais, vai nos tirar do rumo certo.

MaisPB – Então a gestão está 100% focada no combate à pandemia?

Luciano Cartaxo: Nós temos um modelo de gestão, um trabalho que tem planejamento, metas, monitoramento, um esforço que assegurou um novo padrão de qualidade nos serviços e equipamentos públicos e que segue avançando, porque nós queremos continuar inovando, fazendo o que nunca foi feito e, como sempre dissemos, fazendo o que precisa ser feito. Isso vale para o momento atual. O combate firme à pandemia precisa ser feito até que tenhamos superado este desafio tão grande que atinge toda a humanidade. Isso é foco, responsabilidade, compromisso. Isso mobiliza muitas energias, inclusive alcançando as mais diversas áreas da gestão municipal. Todos estamos envolvidos, mas a cidade continua sendo cuidada e administrada como se deve, com todas as particularidades que esta fase impõe, mas como o mesmo zelo e os bons resultados de sempre. É o nosso dever e nós sabemos cumpri-lo diariamente. Com o apoio decisivo da nossa gente, que se orgulha da cidade e também é parte desse cuidado. João Pessoa se transformou numa cidade referência para o país, pelas boas notícias, pelas virtudes. E continuará sendo assim, no que depender de nós. A capital humana, acolhedora, bonita, organizada, respeitada, transparente, solidária. Quem não se orgulha de uma cidade assim. Vamos continuar trabalhando pela vida, a qualidade de vida e em busca de mais oportunidades para o nosso povo. Oportunidade é bem diferente de oportunismo. O importante é manter a coerência e o que está dando certo. É o que vamos fazer, com tranquilidade e a certeza das boas decisões, respaldadas pela população.

MaisPB