Bastidores

Os que se submetem à força continuarão vivos, mas sem alma (por Mario Sergio Conti)

30 de maio de 2020 às 11h22

Alguma deusa grega fez com que a nova tradução da “Ilíada” saísse bem agora. Lançado pela editora 34, o livro tem mais de mil páginas, um sumário dos 24 cantos, índice das centenas de personagens, um estudo de métrica, posfácio de Simone Weil e, ápice da erudição olímpica, é bilíngue.

Ele é fruto do empenho e do afeto de Trajano Vieira. Professor de literatura grega na USP, por dez anos ele ajudou Haroldo de Campos a compor sua versão da “Ilíada” —que concilia a locução de Homero com o rococó de Odorico Mendes e o engenho do poeta concreto.

Vieira perseverou por duas décadas para fazer sua própria tradução, na qual busca “manter o tom coloquial, elevado e protocolar” do original. Feito no século 7 a.C., o épico que fundou a literatura europeia é ideal para estes dias: tem até a peste, disseminada por Apolo para atazanar os gregos.

Isso na teoria. Na prática, estes são dias em que Bolsonaro usa a peste para bufar, espumar, babar e arrebanhar arruaceiros à luz do dia. Quem lá tem cabeça para acompanhar os hexâmetros de gregos e troianos quando o beócio parte para a ignorância? Não é hora para poesia. Mesmo.

É hora de atos. Porque as palavras caducaram na reunião em que Bozo conclamou seu bando a empalmar o poder. Ele permitiu que uma câmera fosse ligada e ficou de frente para ela. Todos os bobos da corte que ali boçalizaram sabiam que suas cafajestadas estavam sendo gravadas.

Não apareceram os milicos engalanados que tutelariam a besta-fera. Nem os impávidos cavaleiros liberais cujas esporas fariam o pangaré molambento apressar o trote. Quem apareceu foi a velha matilha de áulicos incultos que não argumenta —e sim rosna quando Bolsonaro atiça: “Isca!”.

A hora é perfeita para a “Ilíada”, cujas primeiras palavras são: “A fúria, deusa, canta”. É a “fúria funesta responsável por inúmeras dores”. A fúria que tantos inocentes amontoa em covas rasas. Inocentes que são pasto para cães com raiva e aves de rapina. Também no Brasil a hora é de fúria.

A “Ilíada” relata a fúria de Aquiles no décimo ano da Guerra de Troia. Como ele, o presidente diz palavras coléricas como preâmbulo para o emprego da força. O ódio encenado na frente do Alvorada é a aurora de sangue que, como no hino canhestro, brilha no céu da pátria nesse instante.

Pelas contas do helenista Richard Janko, a “Ilíada” descreve 148 feridas que vertem sangue. Doze são produto de flechas; 13 de pedras; 17 de espadas; e 106 de lanças. Já na escolha das armas a violência é viril: “A lança persegue sua vítima como o homem à sua amante”.

Bolsonaro também associa sexo e agressão. Contudo, como a virulência verbal não se traduz em atos, demonstra insegurança em empunhar a lança fálica e —pfff— nada acontecer: sua impotência seria desnudada. Ele fraqueja porque não sabe com com quais forças de fato contará para perpetrar o crime.

Hoje, o presidente conta com: Trump; o naco sangrento do empresariado; generais na ativa (não se sabe quantos); oficiais com medalhas no pijama; a estridente bancada de parlamentares patifes; um punhado de juízes; a chusma lúmpen que o aclama aos domingos.

Para azeitar o golpe, há poucos dias ele deu um belo aumento de salário a militares, PMs e policiais civis de Brasília, cujo governador o apoia. O presidente já avisou que descumprirá determinações do Supremo. A corte terá então que chamar a polícia para obrigá-lo a se submeter.

Nesse quadro, os juízes serão obedecidos? Se não forem, darão ordens às Forças Armadas? O que fará o Congresso? E os governadores? E o povo —que enfrenta a propagação da peste, um desconfinamento atarantado, o desemprego explosivo, a pane na economia, a deterioração da vida?

Essas questões são debatidas interminavelmente. As conversas não avançam porque é forçoso passar das palavras aos atos. Da discurseira em círculos à ação reta. Da encenação da força à força real. Seria preciso entrar no mundo da “Ilíada”, o dos fatos em fúria.

O ensaio de Simone Weil no final da tradução de Trajano Vieira tem o título de “A Ilíada ou o Poema da Força”. Para a militante e mística francesa, o grande poema épico mostra que “a força é o que transforma em coisa qualquer um a ela submetido”.

Os que se submeterem à força do presidente continuarão vivos, mas não terão alma, serão coisas. O heroísmo homérico consiste em não se submeter à força, mesmo ante a iminência da derrota. É uma cólera justa que pode ser adotada por um juiz, um político, por qualquer um de nós.

Folha

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