Bastidores

Está a prêmio a cabeça de Weintraub (por Ricardo Noblat)

22 de maio de 2020 às 11h58

Se rolarem cabeças, caso o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, divulgue na íntegra o vídeo da reunião ministerial de abril último, a do ministro Abraham Weintraub, da Educação, deverá ser a primeira. Como será possível mantê-lo no governo depois que ele for visto nas redes de televisão defendendo a prisão de todos os colegas de Celso, e também a dele?

A confirmar-se, Weintraub chamou os ministros do Supremo de ladrões, e não satisfeito, Brasília de “cancro” que deveria ser extirpado. Cancro é uma doença sexualmente transmissível. Será interessante observar a reação do presidente Jair Bolsonaro e dos demais ministros ao que disse Weintraub. Eles riram? Se indignaram? Ou permaneceram impassíveis?

É certo que Bolsonaro riu muito quando Ernesto Araújo, o diplomata que virou ministro das Relações Exteriores sem nunca ter sido embaixador, afirmou que o covoronavírus estava mais para “comunavírus”, uma vez que surgiu na China comunista. Os demais ministros riram também? Mantiveram-se impassíveis? Algum pediu respeito ao maior parceiro comercial do Brasil no mundo?

A cabeça do ministro da Educação já estava a prêmio antes de ele ter dito o que lhe atribuem. E o preço a ser pago por ela valerá a pena para Bolsonaro. Weintraub, que deve o cargo ao autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, guru da família presidencial, não é só polêmico em excesso, é também considerado o mais fraco e criador de problemas dos 22 ministros do governo.

Há muito tempo que os ministros militares com gabinetes no Palácio do Planalto pressionam Bolsonaro para que o demita. Weintraub se opôs à entrega de cargos no seu ministério ao Centrão, o grupo de partidos mais fisiológicos com representantes na Câmara e no Senado. Acabou sendo obrigado por Bolsonaro a cedê-los. O Centrão está de olho na vaga que poderá se abrir com a saída dele.

A remoção do cancro – ou melhor: de Weintraub – poderia dar a entender ao país que o presidente e o seu governo tenderiam, afinal, a se normalizar. A abertura de um eventual processo de impeachment talvez perdesse fôlego. Quando nada, Bolsonaro ganharia tempo para trocar outras peças defeituosas e seguir em frente. Nem mesmo à oposição sua queda interessa. Ela teme a ascensão do vice.

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