Bastidores

Nas mãos de Celso de Mello, mais um campeão de audiência (por Ricardo Noblat)

21 de maio de 2020 às 13h15
NOS BASTIDORES - Celso de Mello: a cadeira do decano, que se aposenta em novembro, voltou a ser disputada Mateus Bonomi/AFP

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, acabou de retocar, ontem, seu voto sobre o sigilo do vídeo com a gravação da reunião ministerial de 22 de abril último onde, segundo o ex-ministro Sérgio Moro, o presidente Jair Bolsonaro ameaçou intervir politicamente na Polícia Federal. Foi por isso que Moro se demitiu.

Celso ficou chocado com o que viu. Ele disse que anunciaria sua decisão amanhã, mas fez a ressalva de que poderia antecipá-la. Hoje ou amanhã, não importa. O ministro já reuniu argumentos de sobra para justificar o voto a favor da liberação do vídeo na íntegra. Se assim for, vem por aí mais um campeão de audiência.

Quando o Procurador-Geral da República pediu a abertura do inquérito, Celso decidiu de pronto que tudo deveria correr a céu aberto. Sob reserva, apenas o que pudesse a certa altura prejudicar investigações ainda em curso. O distinto público tem o direito de saber se procede ou não o que Moro imputa a Jair Bolsonaro.

Os dois não são pessoas comuns. Um, além de ministro da Justiça, foi juiz durante mais de 20 anos e comandou a maior operação de caça a corruptos da história do país. O outro é simplesmente o presidente da República. Não poderão restar dúvidas sobre o comportamento de um ou de outro. Transparência mata dúvidas no nascedouro.

De resto, como um ministro do Supremo pode eventualmente tomar conhecimento de um ou mais crimes cometidos e preferir ocultá-los? A ser verdade que o ministro da Educação defendeu diante do presidente a prisão dos 11 ministros do Supremo, isso por si só já configura um crime que não pode ser ignorado.

É fato que a ministra da Mulher e dos Direitos Humanos defendeu a prisão de governadores e de prefeitos, mas somente daqueles envolvidos com corrupção. Em manifestações de rua, pode-se pregar o fechamento do Congresso e da Justiça. Mas em uma reunião de governo, ministro não pode sugerir impunemente a prisão de juízes.

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É possível que Celso não se limite a examinar no seu voto a questão da quebra do sigilo do vídeo. Deverá ir adiante, dissertando sobre atos de Bolsonaro que, ao seu ver, podem ser encarados como crimes de responsabilidade. Caso o faça, dará sustentação para novos pedidos de impeachment contra ele.

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