Bastidores

Esquerda sofrendo do fígado (por Helena Chagas)

21 de maio de 2020 às 13h18
ALIANÇA EM VISTA - Marcelo Freixo: apoio condicionado a exigências do PT Claudia Martini/Futura Press

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) fez o gesto político mais importante da temporada ao anunciar a desistência da pré-candidatura a prefeito do Rio pela incapacidade de unir as forças de esquerda e centro-esquerda nas eleições deste ano. Bem que ele – segundo lugar em 2012 e em 2016 — tentou formar uma frente que teria chances de dar uma surra no candidato de Jair Bolsonaro, o prefeito Marcelo Crivella, que buscará a reeleição com um vice bolsonarista. Conseguiu conversar com PT e PCdoB, mas PDT e PSB, sobretudo pelos interesses próprios em 2022, não toparam. Para a esquerda, foi-se pelos ares a eleição no Rio, num prenúncio do que pode acontecer em todo o país: divididas, essas forças estão contratando derrotas – agora e em 2022. Pior, podem dar vitórias ao atraso e ao risco à democracia que representa Bolsonaro.

A esquerda brasileira, e boa parte do centro, parece estar sofrendo do fígado. Perdidas em brigas internas, afogadas no ressentimento, despejando sua bile em cima de quem ontem era companheiro, essas forças têm sido incapazes de enxergar o momento excepcional que vive o país e fazer o óbvio: abrir mão de parte de seus interesses para formar uma grande frente capaz de libertar o país. Pelo voto.

Ciro Gomes, por exemplo, vem preferindo cultivar seus ressentimentos com o ex-presidente Lula e o PT, não perdendo oportunidade de agredir, ofender, xingar. Seu PDT vem recusando alianças locais, como no caso do Rio, com o ex-aliado e hoje adversário – ao que parece, mais adversário do que o bolsonarismo. Tenta agora agregar uma frente com outros partidos da oposição, isolando os petistas. Como talvez não possuam número e nem base social suficiente para chegar sozinhos a 2022, podem acabar numa aliança de centro direita com o DEM e o PSDB – só que esse pessoal já tem um candidato na pessoa do governador de SP, João Dória.

É difícil imaginar que as forças progressistas sejam capazes de estar juntas nas eleições presidenciais, ao menos para tentar evitar um novo (ou velho) espantalho da direita. O próprio Lula, ainda amargo pelos mais de 500 dias passados na cadeia, deixou para trás a roupagem paz e amor com que chegou à presidência da República — e dela saiu como o presidente mais popular de todos os tempos. Recusou reunião com Fernando Henrique Cardoso – que, com todas as mágoas e divergências que possa ter, neste momento está do mesmo lado em relação ao governo antidemocrático de Bolsonaro.

Nessa linha, o PT sai em vôo solo na mais importante capital do país, São Paulo, sem alianças que poderiam levar a um segundo turno. Todo mundo sabe que o candidato Jilmar Tatto tem pouquíssimas chances nesse páreo. Muito diferente seria o destino da aliança que chegou a ser ventilada mas que, obviamente, não se concretizou nesses tempos de mau-humor: uma chapa Fernando Haddad-Marta Suplicy. Em Recife, a teimosia do PSB e do PT pode levar ao fracasso do acordo que teria tudo para ser vitorioso. O risco agora é a petista Marília Arraes e o socialista João Campos disputarem — e dividirem.

Além de problemas de fígado, as esquerdas parecem estar padecendo de falta de memória. Não fosse assim, estariam lembradas do passado mais ou menos recente que as levou à vitória em quatro eleições presidenciais seguidas, em ampla aliança com forças do centro. Indo um pouco mais longe na história, vão encontrar a operação política que uniu contrários para tirar o país da ditadura. E é de um dos artífices dessa aliança, Ulysses Guimarães, a lição da qual todos deveriam se lembrar hoje: não se pode fazer política com o fígado, conservando o rancor e os ressentimentos na geladeira…

Blog do Noblat/Veja

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