Bastidores

Cloroquina já (por Paollo Zanotto)

7 de abril de 2020 às 21h14

O lemingue é um pequeno roedor que vive no Ártico. São animais solitários por natureza, encontrando outros da espécie apenas para reprodução. Apresentam uma altíssima taxa de reprodução, especialmente quando a comida é abundante —o que, no Ártico, ocorre em circunstâncias excepcionais. Quando a população se torna muito densa, os lemingues se dispersam freneticamente à procura de alimento. Ao encontrar obstáculos como corpos d’água em seu caminho, eles tentam atravessá-los, afogando-se aos milhares. No século 19, foi a visão de dezenas de milhares desses roedores mortos nas praias da Noruega que acabou dando origem ao mito de que lemingues cometeriam suicídio coletivo.

A parábola do lemingues é ilustrativa no contexto da pandemia de Covid-19. Apesar de falso, o comportamento supostamente suicida dos lemingues tem sido muitas vezes utilizado como metáfora daquelas pessoas que seguem a maioria sem questionar, mesmo que seu comportamento tenha consequências terríveis.

Na pandemia atual, diversos trabalhos publicados nos últimos dois meses em revistas de renome internacional já mostraram os benefícios para o tratamento de doentes com Covid-19 da administração da droga hidroxicloroquina, como foi o caso do artigo pioneiro do grupo do médico francês Didier Raoult (seguido por trabalhos de pesquisadores chineses em Clinical Infectious Diseases e outros).

Também foram publicados estudos relatando resultados promissores da associação de hidroxicloroquina com o antibiótico azitromicina ou os antivirais favipiravir, remdesivir e kaletra —um medicamento indicado no tratamento de pacientes com HIV que associa os antivirais Lopinavir e Ritonavir e na semana passada um vermífugo, a ivermectina, ficou em evidência por seu efeito in vitro.

Mostrou-se também o benefício do uso de Interferon alfa-2b, ou de monoclonais anti-CD147, que têm um efeito positivo na redução da carga viral do SAR-CoV-2. Ademais, já sabemos que vitamina D e zinco têm efeito positivo.

As drogas acima citadas são bem conhecidas e a hidroxicloroquina é usada há décadas como antimalárico e no tratamento de complicações advindas de autoimunidade. Ela dificulta a entrada do vírus na célula e o uso pelo vírus do sistema de síntese de proteínas. Por sua vez, a azitromicina é um antibiótico com um papel fundamental na pneumonia secundária bacteriana e atividades vantajosas, como imunomodulação e inibição mitocondrial com efeito antiviral. Portanto, a combinação das duas moléculas impede a biomagnificação viral, minimiza lesões irreversíveis, dando tempo ao nosso sistema imune de controlar e eliminar o vírus.

A pandemia avança de modo exponencial. É evidente que não temos tempo para aguardar os resultados de avaliações canônicas (testes clínicos, duplo cego em todas as fases usuais), que levariam meses ou anos, para só então começar a administrar aqueles medicamentos.

Daí a minha oposição ao que defende o Ministério da Saúde, que a hidroxicloroquina seja apenas administrada em pacientes em estado grave, que já estão na fase inflamatória da doença, quando a terapia tem eficácia altamente reduzida. O mais razoável, portanto, é o tratamento precoce com hidroxicloroquina de pacientes com Covid-19, de acordo com os protocolos que estão sendo aplicados no hospital Albert Einstein, no hospital Sancta Maggiore e na Santa Casa, em São Paulo, e em países como a Itália, os Estados Unidos e a China.

Vale aqui recordar o exemplo dos médicos japoneses, ingleses e americanos, que durante a Segunda Guerra Mundial, no teatro de operações do Pacífico. Na falta de soro, usaram água de coco como medida de compaixão em transfusões de feridos, conseguindo assim hidratar os pacientes e salvar muitas vidas. Em 1954, portanto quase dez anos após o término do conflito, foi publicado um estudo na revista da Associação Americana de Medicina avaliando e comprovando a técnica.

O que teria acontecido com os milhares de soldados salvos graças às transfusões de água de coco caso aqueles médicos tivessem optado por aguardar pela publicação de avaliações científicas antes de salvar vidas numa situação de emergência?

Assim como os lemingues do Ártico, que ao atingirem densidades populacionais elevadas, abrem mão do instinto de sobrevivência e iniciam a migração que, eventualmente, pode conduzi-los ao suicídio em massa, é inaceitável, vergonhosa e criminosa a oposição suicida a protocolos que estão salvando a vida de pacientes e médicos, todos os dias no mundo todo!

Cabe salientar que todas estas drogas devem ser prescritas unicamente por médicos, com acompanhamento próximo e nas dosagens indicadas para cada caso —jamais auto-administradas sem supervisão!

Paolo Zanotto – Virologista com doutorado pela Universidade Oxford, é professor no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, onde pesquisa vírus emergentes como zika, dengue, chikungunya e febre amarela

Folha

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1.229

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