Bastidores

Pandemia: à ciência, as diretrizes, à política, obediência total (por Sérgio Botelho)

31 de março de 2020 às 16h07

(Brasília) – Após defesas originalmente enfáticas de um medicamento contra malária supostamente eficaz contra o coronavírus, multiplicam-se casos de problemas sérios por quem se aventurou a aceitar a indicação.

Com efeito, a hidroxicloroquina tem feito mais para o mal do que para o bem, até agora. Entre os males causados pelo remédio, há relatos de mortes. Agora mesmo, na França, 3 pacientes de coronavírus morreram por conta de possíveis efeitos colaterais provocados pela medicação.

Além dos 3 casos fatais, são citados, naquele país, outros 27 casos de intoxicação em pacientes que tomaram a hidroxicloroquina. Como resultado, o governo francês enquadrou o uso desses medicamentos nos hospitais.

Isso não quer dizer que a medicação esteja totalmente queimada como possível remédio no combate ao Covid-19. Contudo, a ciência chama a atenção para a necessidade de mais testes clínicos até chegar a um diagnóstico preciso sobre o uso da hidroxicloroquina.

No Brasil, após uma enxurrada de posts nas redes sociais, sem qualquer embasamento médico, a droga desapareceu das prateleiras das farmácias. Dessa forma, pacientes crônicos necessitados de tomar o medicamento, ficaram sem ele.

Não somente isso. No decorrer da pandemia, os não provados benefícios da medicação foram explorados politicamente. Desse jeito, o presidente Trump, nos EUA, e o presidente Bolsonaro, no Brasil, fizeram defesa da hidroxicloroquina de forma entusiasmada.

O objetivo de ambos era o de provar, de qualquer forma, que a pandemia não deveria ser levada em conta. Senão pela sua gravidade, já exposta pelos cientistas, mas, pela sua provável cura, por meio do medicamento.

A reação médica internacional ao receituário, sem base científica, logo fez o líder norte-americano recuar. Recuou tanto que, avesso à proposta de isolamento social, passou a defender a quarentena, de maneira enfática, como forma de impedir o avanço do vírus.

Entretanto, não foi a mesma coisa que aconteceu com o presidente brasileiro. Diferentemente de Trump, Bolsonaro não somente continuou defendendo a hidroxicloroquina, como combatendo, sem tréguas, o isolamento social.

Os casos em pauta revelam todo o perigo de transformar pandemias em campo de disputas políticas. O que pode chegar ao absurdo atual de receitar remédios à população, sem o devido cuidado adotado pela ciência.

Sabe-se que nessas ocasiões a fragilidade popular, por conta do desespero, é um campo aberto ao charlatanismo. Dessa forma, é necessário que haja forte vigilância política para dar voz definidora à ciência. Ao Estado cabe, tão somente, respaldar as orientações científicas. E pronto.

Esses episódios necessitam se constituir em fatores de mudanças a se imporem ao mundo no pós-crise. À ciência, cabe o papel de determinar, em termos absolutos, as diretrizes sobre conhecimentos que somente cabem aos cientistas.

A nós outros e ao Estado, obedecer cegamente aos regramentos e conselhos emitidos por eles, os cientistas. Porque, caso não seja assim, corre-se o risco de ao invés de combater a doença, estarmos servindo mesmo ao propósito de piorar o quadro.

Neste momento, diante da crise do coronavírus, é preciso, mais do que tudo, evitar o charlatanismo e a esperteza. Assim, estaremos, todos, contribuindo enormemente para o sucesso da ciência no combate à pandemia terrível que nos assola.

MaisPB

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