Bastidores

Me odeie pelos motivos certos (por Mario Sabino)

1 de março de 2020 às 13h26
Karl Kraus

“Para fazer uma excelente sátira, bastar dizer como são as coisas.”

A frase é do austríaco Karl Kraus, um dos grandes satiristas, senão o maior, do século XX. Ele era um jornalista que odiava jornalismo pelos motivos certos. Porque, é bom frisar, você pode gostar ou odiar — tudo, não só jornalismo — por razões certas ou erradas.

O ódio de Karl Kraus ao jornalismo está condensado no seguinte trecho de Nesta Grande Época, publicado em 1918, ano em que terminou a Primeira Guerra Mundial:

“A submissão da humanidade à economia só lhe deixou a liberdade de ter inimigos, e, se o progresso lhe acerou as armas, criou-lhe também a mais assassina de todas, uma arma que lhe tirou, para além da sua necessidade sagrada, até mesmo a última preocupação com a salvação espiritual terrena: a imprensa. Torna-se-me claro que a vida não passa de uma cópia da imprensa. Se, nesta era de progresso, aprendi a subestimar a vida, fui forçado por outro lado a sobrestimar a imprensa. O que é ela? Um simples mensageiro? Alguém que nos incomoda com as suas opiniões? Que arrasta atrás de si um séquito de personalidades informadas, a par dos acontecimentos, iniciadas e notáveis, que têm por função dar-lhe o aval, dar-lhe razão, parasitas importantes do supérfluo? Um dia as pessoas poderiam dar-se conta de como uma guerra mundial como esta foi uma coisa insignificante comparada com a automutilação espiritual da humanidade através da sua imprensa. Hoje em dia, as relações entre as catástrofes e as redações são muito mais profundas e portanto muito menos claras.”

Quando ouço jornalista chamando jornalista de “brilhante” ou “mestre”, tenho arrepios. Não existe jornalista brilhante. Existe médico brilhante, físico brilhante, químico brilhante. E mestre cervejeiro até pode existir, mas jornalista mestre é uma contradição em si. Mestre em quê? Cito outra vez Karl Kraus:

“O barbeiro conta novidades quando deveria apenas cortar o cabelo. O jornalista é espirituoso quando deveria apenas contar novidades. Dois sujeitos que querem subir na vida.”

Na verdade, Karl Kraus não era jornalista. Ele esteve jornalista. Eu me condenei a estar jornalista. Vim parar no jornalismo por absoluta falta de talento para qualquer coisa. Como o meu avô materno era repórter, talvez tenha me tornado jornalista por causa de um Complexo de Édipo mal resolvido, sei lá. O que sei é que odeio jornalismo, assim como Karl Kraus odiava. Não fiz amigos em nenhuma redação por que passei, não frequento rodas de jornalistas e acho um clube de carteado mais respeitável do que as associações de classe jornalísticas. O tipo de jornalista mais repulsivo? Aquele que usa a verdade para contar mentiras. O mais doloroso na profissão, contudo, não é ter de conviver com esse tipo de gente. É ficar colado à realidade mais chã durante todo o tempo. Automutilação espiritual.

Nunca tantos odiaram o jornalismo como agora. Uma pesquisa do Pew Research Center, divulgada nesta semana, mostra que diminuiu o número de brasileiros insatisfeitos com a democracia. Há dois anos, 83% não estavam contentes com o pior de todos os regimes, excetuados todos os outros já tentados. Hoje, são 56%. Em tendência inversa, o apoio à liberdade de imprensa   caiu de 71% para 60% no mesmo período. É curioso que os brasileiros não associem democracia a liberdade de imprensa, mas dá para entender. A imprensa andou fazendo muita coisa feia. A principal delas foi tentar deslegitimar a candidatura de Jair Bolsonaro. Ele é o que é, mas democracia é isto aí: resignar-se a ser governado por quem você não gosta na pessoa física ou de quem você discorda radicalmente na jurídica, se assim decidir a maioria. O problema é o ódio ao jornalismo pelos motivos errados. Mesmo Karl Kraus informava-se pela imprensa, e até fundou e dirigiu um jornal. Porque não tem jeito: jornalistas sempre acabam forçados a relatar fatos, embora não raro os interpretem mal.

Fernando Collor de Mello caiu por obra da imprensa. A compra da emenda da reeleição, no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi revelada por jornalistas. O mensalão de Lula, idem. As pedaladas que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff? Imprensa. Não fossem jornalistas, a Lava Jato teria sido abortada logo no início — e, provavelmente, Bolsonaro não teria chegado ao Palácio do Planalto. Você até pode achar que a imprensa continua a carregar nas tintas em relação ao presidente, mas é inegável que o filho mais velho dele, o hoje senador Flávio, mantinha gente suspeita lotada no seu gabinete de deputado estadual, no Rio de Janeiro. E ora veja só: não haveria tanto frisson com a manifestação no próximo dia 15, se jornalistas não tivessem divulgado a fala do General Heleno sobre os chantagistas do Congresso. Chantagistas: lembre-se de que todo político é mentiroso, em maior ou menor grau, e é preciso ter gente atrás das portas, para vigiá-los e jogar o lixo fora. Alguém precisa fazer o trabalho sujo.

Odeie o jornalismo pelos motivos certos, não pelos errados. Grite quando erramos na informação, emitimos opiniões enviesadas ou, pior, usamos a verdade para contar mentiras. Mas fatos são como aquelas especialidades de restaurantes franceses — incontornáveis. Não adianta substituí-los por versões oficiais e sair gritando que tudo é fake news ou fofoca. É má sátira, inclusive. A sua maior vingança contra os jornalistas é sabê-los indissociáveis da realidade mais rasteira, mais abjeta. Para voltar a Karl Kraus, “a relação dos jornais com a vida é mais ou menos a mesma das cartomantes com a metafísica”. Você pode escapar da automutilação espiritual. Nós, não.

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