Bastidores

Resgate os brasileiros do Brasil (por Leandro Narloch)

9 de fevereiro de 2020 às 20h00
Avião da FAB que resgatou brasileiros no exterior

A Força Aérea Brasileira gastou um tremendo cascalho para enviar quatro aviões à China para resgatar trinta e poucos brasileiros em quarentena em Wuhan, na província de Hubei. Nossas benevolentes autoridades consideraram que os brasileiros corriam muito risco na região, centro do surto de coronavírus, e portanto seria virtuoso que o bom pastor fosse atrás das ovelhas perdidas.

Foi um gasto à toa. Pior: foi um gasto que colocou em risco a vida dos nossos conterrâneos na China. Se o objetivo da viagem da FAB era garantir a segurança dos brasileiros, seria mais sensato fazer o contrário: evacuar os brasileiros do Brasil. E enviá-los para Hubei.

É mais perigoso viver no Brasil sem coronavírus que na China com coronavírus. A taxa de homicídios do Brasil é trinta vezes maior que a chinesa. Se os 58 milhões de chineses de Hubei tivessem que enfrentar nossa violência desde 1º de dezembro, início da epidemia, 2900 já estariam mortos. É mais de cinco vezes as 549 mortes naquela província pelo coronavírus até esta quinta-feira, dia 5, 14 horas.

Provavelmente uma imigração em massa de brasileiros aumentaria a violência na China, mas não o suficiente para chegar aos nossos 30 homicídios por 100 mil habitantes. Ou seja: milhares de vidas seriam salvas com essa nobre ação presidencial.

A FAB poderia, por exemplo, ter aproveitado os lugares vagos nos aviões, que foram à China meio vazios, para levar algumas dezenas de brasileiros que optassem por emigrar. Eu seria um dos voluntários. Me manda pra Hubei, Bolsonaro!

Hubei não deve ser um lugar exatamente bonito, interessante ou bem-cheiroso. Mas veja por outro lado. Lá tem coronavírus, aqui tem Glenn Greenwald.

Além da segurança, passar algumas semanas no centro da epidemia do coronavírus teria outras vantagens. Eu viveria dias tranquilos sem saber das últimas baixarias do Alexandre Frota. Sem ouvir falar das fanfarronices dos filhos do presidente. Sem sentir vergonha alheia com os erros de português do ministro da Educação. Passaria batido pelas acrobacias argumentativas de quem defende as mentiras do documentário “Democracia em Vertigem”.

Ontem mesmo tomei a decisão. Após dois ou três minutos de reflexão na varanda do meu apartamento com vista para Osasco, decidi ficar de malas prontas. Vai que o presidente tem um surto de sensatez e decide resgatar os brasileiros da calamidade atual em que nos encontramos no Brasil. Se isso acontecer, estarei pronto para embarcar no jatinho da FAB. Me manda pra Hubei, Bolsonaro!

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