Bastidores

Zé de Abreu contra Regina Duarte

2 de fevereiro de 2020 às 10h00

Zé de Abreu está difamando Regina Duarte, porque a atriz aceitou ser secretária especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro.

Nesta quarta-feira, ele escreveu o seguinte no Instagram:

“Desafio Regina Duarte a debater política, cultura, ponto eletrônico, Rouanet e o que mais quiser, no foro que escolher, no momento em que quiser. Está lançado o desafio que sei, de antemão, que ela jamais aceitará. De quebra pode levar Vereza, Maitê e quem mais escolher.

Topa, apoiadora de fascista? Ministra — nem isso — secretária! de um presidente sem legitimidade, um escroto, que quer que você discrimine a diversidade? Que quer que você discrimine LGBTS.”

E também:

“Eu sei o que fizemos na sua casa, na Barra da Tijuca. Eu sou artista, assumo meus vícios e me libertei deles. Mas você, assumindo um cargo público, vai ter que prestar conta deles.”

E ainda:

“Lembra de quantos gays lhe tiraram rugas? Coloriram seus cabelos brancos? Criaram figurinos para esconder suas banhas? Você está cagando na cabeça deles! Eles me ligam, desesperados, com sua postura! Tenha vergonha nessa cara! Vou até o fim. Assuma seu cargo de apoiadora de fascista se tiver coragem. E aguente as consequências. Outra coisa, EU NÃO ESTOU SÓ! Arrisco minha carreira para impedir que uma colega minha se atire num poço sem fundo.”

Para além das ofensas misóginas a Regina Duarte, enfatize-se que a difamação perpetrada por Zé de Abreu inclui abertamente uma chantagem sobre não se sabe qual episódio na casa da atriz na Barra da Tijuca. Se Regina Duarte matou alguém e escondeu o corpo, participou de um estupro ou distribuiu produto de roubo, ele está obrigado a falar ou será considerado cúmplice. Se ela não fez nada disso, é inadmissível que tenha qualquer aspecto da sua vida privada usado para coação. A falta de legitimidade de Bolsonaro é, por sua vez, uma falácia. Ninguém precisa gostar do atual presidente da República, mas o fato é que ele foi eleito em votação limpa, ao contrário do que querem fazer crer os petistas como Zé de Abreu — e até o momento nenhum aspecto legal o deslegitima para ocupar o cargo. Suposições não são fatos.

O aspecto mais revelador da agressão de Zé de Abreu é a frase “Arrisco minha carreira para impedir que uma colega minha se atire num poço sem fundo.” Ou seja, Zé de Abreu diz que está disposto a sacrificar-se, por meio do linchamento moral, a fim de salvar Regina Duarte. O linchamento moral é um ato altruístico, veja só. Mas o abnegado quer salvá-la de quê? Ele é explícito: do livre-arbítrio. Quer salvar Regina Duarte de Regina Duarte. Para Zé de Abreu, é simplesmente inconcebível que a atriz identifique-se com valores de direita e se disponha a colaborar com um governo de direita. Afinal de contas, se você é de direita, só pode ser fascista. É uma característica do autoritarismo — tanto de esquerda como de direita— tirar a legitimidade do adversário, transformá-lo em pária e, por fim, cancelá-lo. Do lado da esquerda, essa operação ideológica é feita em nome do amor à humanidade. No início, essa humanidade era representada por uma classe; agora, ela é representada pela diversidade. A defesa deve ser intransigente em relação à diversidade étnica e sexual, mas, atenção, jamais pode ocorrer no campo das ideias e da ação política. Para quem pensa e age diversamente da esquerda, o campo é de concentração. Se o povo elege um candidato de direita, é preciso salvar o povo do próprio povo.

No plano estritamente partidário, trata-se de evitar que Regina Duarte possa, como disse Hamilton Mourão, trazer suavidade e diminuir tensões na área cultural, o terreno de combate mais estridente entre petistas e bolsonaristas. Depois do desastre causado pelo Goebbels de Wikipedia, tudo o que o PT não quer é uma Regina Duarte apaziguando ânimos no meio artístico. É preciso isolá-la, marcá-la, torná-la um agente patogênico. Ela não pode estragar de jeito nenhum a tal narrativa de uma democracia em vertigem. Regina Duarte tem de virar um coronavírus antes que tente instaurar uma trégua entre os combatentes. Nesse aspecto, a linha dura do bolsonarismo se irmana com o PT — tanto é que Bolsonaro já avisou que não admitirá fogo amigo contra Regina Duarte. A ver se ele não sucumbirá aos seus Zés. A ver se a própria atriz não cederá às provocações dos detratores e abandonará a suavidade que lhe é atribuída como característica essencial.

Tudo a ver e nada a ver. O fato de ser um idiota ideológico e partidário não deveria tornar Zé de Abreu moralmente inimputável. Mas à esquerda, os leitores têm razão, tudo é permitido. E essa permissividade leva ao acirramento também à direita. Não acho razoável nem salutar que só um dos lados seja objeto de opróbrio por atitudes abjetas. Regina Duarte não fez nada a Zé de Abreu — ou à humanidade — que justificasse o ódio destilado pelo sujeito. Ela apenas pensa diferente dele. A reação ideológica e partidária de Zé de Abreu é imoral.

Crusoé

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