Bastidores

O crime não é jornalismo (por Diogo Mainardi)

26 de janeiro de 2020 às 11h41
Glenn (Adriano Machado/Reuters)

A imprensa emporcalhou-se com as mensagens roubadas da Lava Jato. Foram meses e meses publicando imundices para tirar um criminoso da cadeia. É natural que, agora, os jornalistas saiam em defesa de Glenn Greenwald. Mais do que uma questão corporativa ou partidária, sua blindagem é uma manobra desesperada para tentar blindar a própria imprensa. Ninguém quer que o orientador dos hackers, segundo a denúncia apresentada pelo MPF, seja investigado, porque qualquer ato criminoso que ele tenha eventualmente cometido vai contaminar seus comparsas, espalhados por jornais e revistas.

Um dia antes que o MPF denunciasse Glenn Greenwald, seu site publicou duas mensagens que enviei a Deltan Dallagnol. As mensagens eram irrelevantes e referiam-se a episódios menores da Lava Jato. Os hackers, evidentemente, estavam à procura de algo mais explosivo – um desvio que comprometesse o trabalho de Sergio Moro, dos procuradores e, em último lugar, de O Antagonista. Por exemplo: um vazamento sobre Lula, cujo encarceramento motivou o roubo das mensagens da Lava Jato. Mas eles quebraram a cara, porque não é assim – com métodos criminosos – que Sergio Moro e os procuradores atuam. E não é assim – com métodos criminosos – que nosso site faz jornalismo.

O que importa nesse episódio é outra coisa. Para justificar o roubo de minhas mensagens, os cúmplices dos hackers argumentaram estupidamente que “o sigilo da fonte é um direito do repórter, não obrigação dos demais”. Se ninguém é obrigado a respeitar o direito do repórter, então ele não tem direito algum – e o procurador pode partir para cima de Glenn Greenwald, violando suas garantias constitucionais. Ele não vai fazer isso, claro. O MPF respeita os direitos dos repórteres e persegue apenas os criminosos.

O STF deve acabar impedindo que Glenn Greenwald seja investigado. Não, não o STF: Gilmar Mendes. O mesmo Gilmar Mendes que foi roubado pelos hackers. As perguntas que teriam de ser feitas sobre a quadrilha de hackers e seus mandantes serão enterradas. Perguntas que não têm nada a ver com o trabalho jornalístico, e sim com a responsabilidade penal – e individual – dos jornalistas. Se Glenn Greenwald for considerado inimputável, nunca saberemos exatamente como agiu aquela corja, a não ser que os delatores tenham esclarecido tudo para o MPF.

Rodrigo Maia, em defesa da imunidade absoluta de Glenn Greenwald, disse que “jornalismo não é crime”. Ele está certo. O contrário também vale: o crime não é jornalismo.

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