Bastidores

Comprei a calça Lee do marinheiro que lavava o convés (por Evaldo Costa)

7 de janeiro de 2020 às 19h49

Observe quantas pessoas em volta estão usando calças jeans. Dependendo do dia e da hora, podem ser todas. Certamente todos usam mais calças jeans do que qualquer outro tipo.

Nem sempre foi assim. Há quatro ou cinco décadas, comprar uma calça jeans poderia até ser perigoso. Quem se atrevia, corria o risco de ser preso pela Polícia Federal, e responder processo na Justiça Federal.

Isso ocorria porque, até o começo da década de 1980, jeans se chamava calça Lee.  Quem tinha uma, ou trouxera diretamente dos Estados Unidos, voltando de  alguma viagem, ou comprara ao contrabandista. E era aí que abraçava o perigo. Uma das manobras mais usadas era subir em um navio ancorado no Porto e comprar a calça usada pelo primeiro  marinheiro encontrado, não importando quão suja estivesse,  nem que fosse dois ou três números maior.

Por que as pessoas faziam isso? Ora, porque a calça Lee não era somente uma peça de vestuário, mas um símbolo identitário. Não só vestia, mas também significava, dava sentido, atribuía valor. Na prática, era um discurso sobre ser jovem, rebelde e livre.

Não é fácil compreender como atingiu este status. Do mesmo jeito que  a Coca-Cola foi criada como remédio e virou o que virou, a calça Lee foi inventada em 1889 em Kansas, Estados Unidos, para ser uniforme de mineiro, vaqueiro, mecânico, pedreiro, ou seja, para ser usada em trabalho que suja, trabalho pesado, isento de qualquer glamour.

Nos anos 1960, porém, foi resgatada pela geração do rock ‘n’ roll, os jovens que fizeram o movimento hippie e a contracultura. Virou quase uma farda.  Quem permaneceu vestido em Woodstock, certamente usava uma calça Lee.

Chegamos, então, à terceira fase desta breve história social da calça jeans. A partir da década de 1980, o índigo blue, tecido de que são feitos as calças  jeans, passou a ser produzido no Brasil. A Alpargatas, mesma fabricante das famosas sandálias havaianas, lançou a marca USTOP com um jingle que entrou para a história da propaganda no Brasil.

“Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, / que você pode usar/ do jeito que que quiser./ Não usa quem não quer / USTop – desbote e perca o vinco”.

O consumismo transforma tudo em mercadoria. Sonhos e revoluções estão à venda nas mesmas prateleiras das sandálias de plástico e das colchas de chenille. Até mesmo a liberdade, de repente, nada mais é que uma calça envelhecida industrialmente em Toritama, à venda nas lojas físicas e virtuais por módicos 95 reais.

E assim, na verdade nem tão livres, mas sem medo do chão molhado ou da tinta fresca, seguimos pela vida afora com nossas calças  azuis, rasgadas ou bordadas, pouco importa. Vamos adiante com a indumentária que o século XX nos legou, a roupa dos rebeldes conformistas, dos transgressores acomodados, dos jovens velhos e dos velhos jovens, rejeitando e aceitando, negando e reafirmando,  tudo ao mesmo tempo, agora.

*Evaldo Costa – jornalista, ex-secretário de Imprensa do Governo de Pernambuco

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