Bastidores

A Bia, Paulo Freire e eu (por Mario Sabino)

7 de dezembro de 2019 às 11h00

Se você perdeu a notícia em meio à profusão de boas novas vindas da Câmara, vou recapitular o que registrei em O Antagonista, na minha tediosa ocupação de jornalista profissional e, agora, na esperança que você ultrapasse a colina de números compilados. No início desta semana, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do último Pisa, o exame de avaliação de alunos de 15 anos coordenado pela entidade e realizado a cada 3 anos desde 2000. O Brasil, para variar, ficou numa posição humilhante entre as 79 nações cujos estudantes foram avaliados. No ranking geral, o país ficou em 57° lugar em leitura, em 70° em matemática e em 66° em ciências. A China, representada por quatro províncias, obteve o primeiro lugar nas três competências, o que me fez lembrar uma piada da minha adolescência: “mate um asiático e entre na faculdade” (espero não ser processado por causa da lembrança).

Quando os números gerais são destrinchados, o desastre mostra com mais força as suas proporções ferroviárias: 50% dos alunos brasileiros figuraram entre os piores em leitura (23% nos países da OCDE) e 68% entre os piores em matemática (24% na OCDE). Os que atingiram o alto do ranking em ao menos uma competência foram apenas 2% (16% na OCDE). Quer outro susto? Apenas 2% dos estudantes brasileiros conseguem diferenciar fato de opinião, contra 10% do conjunto de estudantes dos outros países. É fato, não opinião.

Como era previsível, e até certo ponto justificável, puseram a culpa naquela disciplina subjacente a quase todas as outras, a doutrinação esquerdista. E deram um rosto barbudo à nossa encrenca escolar: o de Paulo Freire, alvo preferencial de Abraham Weintraub, o ministro da Educação que talvez escreva “insitaria” por culpa das variações infantis do método de alfabetização de autoria do Rousseau nacional. Sem querer incitar os leitores ao ódio contra mim, confesso: tentei ensinar adultos a ler e escrever por meio do método de Paulo Freire. A meu favor, posso dizer que foi numa única noite e a responsabilidade é da Bia.

Conheci a Bia em 1980, num cursinho pré-vestibular onde exercitava a minha então atividade preferida: brisar, como diria o meu filho caçula, que segue o modelo paterno. Loira, alta, olhos claros, a Bia parecia bonita o suficiente para que eu, moreno, estatura mediana e olhos escuros, me interessasse por ela. A Bia também tinha um quê de personagem de Ingmar Bergman, com os óculos redondos e enormes emoldurados pelos cachos dourados. Ficamos amigos, e nunca fomos além disso, embora houvesse uma certa tensão no ar. Ia à sua casa à noite, para não fazer o que pretendíamos: estudar. Só conversávamos. Foi lá que conheci a sua outra irmã loira, mas não arriscarei mais uma digressão.

Entramos na PUC de São Paulo, em 1981. Ela, em psicologia; eu, em jornalismo. Simpaticamente, a Bia apareceu na porta da minha classe, para me dar um presente de aniversário: o livro O Que É Isso, Companheiro?, de Fernando Gabeira. Está na minha estante até hoje. Nós nos encontrávamos no intervalo, com frequência que foi escasseando. Amizade, aquela tensão. Certa vez a levei — na verdade, ela me levou, porque o carro era do pai dela, uma Caravan, se não me engano — ao sobradinho do Bexiga onde o Diogo Mainardi morava, juntamente com a primeira mulher, depois de ele abandonar a London School of Economics, alérgico que era a formalidades escolásticas, assim como eu. Foi em 1982. A minha única lembrança nítida dessa noite é do Diogo gordalhão, sentado numa poltrona da qual não levantava o traseiro, perguntando à Bia quanto o pai dela ganhava por mês. Economics.

No começo daquele ano, fui ao aniversário da Bia, na casa nova da família dela, projetada justamente pelo pai arquiteto de quem eu ficaria sabendo o salário graças ao Diogo. Os quartos eram cubículos e a sala era enorme, em obediência ao preceito de que todos deveriam passar a maior parte do tempo na área comum. Socialismo aplicado à arquitetura, sempre em concreto cinza na parte externa, sempre em linhas retas quando seria recomendável uma ou outra curva, sempre em linhas curvas quando seria recomendável uma ou outra reta. Conheci diversas casas semelhantes, invariavelmente em bairros chiques. Boa parte tinha uma lousa verde na copa adjacente à sala enorme. Era moderno a família deixar recados a giz.

Retomando: fui ao aniversário da Bia, após a minha primeira viagem à Europa. Como estava chovendo, apareci com um impermeável comprado em Roma. Ela abriu a porta e perguntou: “O que significa isso?”, apontando para o meu impermeável. Respondi: “Eu é que pergunto: o que significa isso?”, apontando para as antenas de arame, com estrelinhas nas pontas, que ela colocara na cabeça. Era moda, descobri. Fiquei recolhido num canto, com o meu impermeável, enquanto observava a quantidade de amigos da Bia. Muitos, mesmo. Permaneci na festa durante uma hora, mais ou menos, esnobado pela aniversariante e me sentindo o Tônio Kroeger, de Thomas Mann. Naquela profusão de antenas de arame com estrelinhas na ponta e rapazes com pulôver de lã de lhama, eu era um buraco negro com o meu impermeável. Fui embora num táxi chamado pelo pai dela.

A lembrança seguinte é da segunda visita à casa nova dela. A Bia estava acamada no cubículo que lhe fora reservado, convalescendo de uma hepatite que pegara na Bolívia. Ela estava traumatizada com a experiência. Foi tão roubada que antecipou a volta ao Brasil, depois de uma crise nervosa que culminou com notas e moedas de pesos jogadas no meio da rua, aos gritos de “se vocês querem dinheiro, tomem!”. Ao pisar no Brasil, viu-se diagnosticada com hepatite. Aproveitei para lhe dar de presente o pôster que trouxera para ela de Siena, com a reprodução do afresco que retrata os efeitos do bom e do mau governo, de Ambrogio Lorenzetti. Foi a vingança do impermeável.

No começo de 1983, a Bia virou a cara quanto tentei cumprimentá-la na PUC. Nunca entendi o motivo, embora certamente eu tenha lhe dado algum. Passei a ouvir falar dela por meio da moça que viria a namorar e que se tornaria a minha primeira mulher e mãe do meu filho mais velho hoje com cinco anos a mais do que eu em 1983. A minha então namorada também estudava psicologia na PUC e tinha uma amizade em comum com a Bia: uma neta de Graciliano Ramos. São Paulo é um cubículo com uma sala enorme. Foi num aniversário da neta de Graciliano Ramos que revi a Bia, ela também em relacionamento estável. Não trocamos palavra. Um quarto de século mais tarde, topei com a minha ex-amiga na academia do clube. Eu não a cumprimentei nem ela me cumprimentou, embora tenha tido vontade de lhe perguntar o motivo pelo qual deixara de falar comigo.

De qualquer forma, a minha experiência com Paulo Freire deve-se à Bia. Havíamos entrado recentemente na universidade, nos entupiam o cérebro com “metodologia científica”, eufemismo para marxismo no período da ditadura, e ela me convidou para ir a uma aula de alfabetização para adultos. Era um curso criado por “um pessoal”. Naquele tempo, havia costumeiramente “um pessoal” por trás de tudo. Usavam uma sala da Faculdade de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas. “O método é do Paulo Freire”, informou a Bia, com o seu tom blasé de atriz de Ingmar Bergman. Eu não fazia a mais remota ideia de quem fosse Paulo Freire — consegui essa façanha mesmo tendo estudado no Colégio Equipe —, mas aceitei o convite. Era a Bia, afinal de contas. Despenquei na Getúlio Vargas numa noite que vou descrever fria, porque em crônicas como esta as noites devem ser frias.

Uma dezena de trabalhadores com ar cansado, sentados nas carteiras destinadas à elite magnânima durante o dia, tentava ler a palavra “jangada” que havia sido escrita em cursivo bem desenhado com caneta Pilot na lousa branca, novidade tecnológica na época. Ao lado da palavra, o “pessoal” havia colocado um cartaz com uma foto da embarcação típica do Nordeste, região de onde provinha a maior parte dos alunos. O tema marítimo havia surgido de uma conversa com eles na aula anterior. Com base no que os alunos iam dizendo, outras palavras foram sendo desenhadas na lousa: “vela”, “mar”, “areia”, “vento”. Em seguida, tais palavras foram reunidas em frases básicas, do tipo “O vento bate na vela da jangada”, algo nessa linha, sugeridas igualmente por eles. O meu papel, bem como o da Bia, era ajudá-los a reproduzir no caderno as frases escritas com caneta Pilot na lousa branca. “Não é legal ver os alunos aprenderem a ler e escrever a partir de palavras do contexto em que eles nasceram? Isso ajuda a conscientizar sobre a situação em que estão hoje”, soprou alguém.

Enquanto tentava auxiliar uma senhora, ela me disse que apenas gostaria de aprender a escrever o seu próprio nome, para não passar vergonha na hora de assinar documentos, e a ler os nomes dos ônibus que tinha de pegar, para não parar do outro lado da cidade. Essa senhora, infelizmente, nunca teria de ler a frase “O vento bate na vela da jangada”, enquanto esperava a condução no ponto da Avenida Nove de Julho, inóspita e horrenda, visível da janela da sala de aula. Angustiei-me. Por que obrigá-la a perder horas de sono, tentando imergi-la num universo da qual fora extraída fazia tempo e para a qual jamais voltaria? Conscientizar sobre o quê? Que revolução o “pessoal” pretendia fazer com aquela gente cansada depois de um dia pesado de batente?

Tentei facilitar a vida da senhora, explicando o que eram sílabas. Fui suavemente repreendido pela monitora chefe: o aprendizado das sílabas deveria vir depois, no momento de formar outras palavras, porque as sílabas eram “arbitrárias”. Espantei-me. E as palavras que designam as coisas e os conceitos também não eram arbitrárias nas suas raízes etimológicas? Explicaram-me, então, que as sílabas ensinadas da maneira tradicional representavam a fragmentação idealizada para alienar os oprimidos. Essa fragmentação era a arma dos opressores. Os opressores da classe dominante que impingiam uma visão “bancária” da educação e simplesmente depositavam informações sobre alunos transformados em recebedores passivos do conhecimento — sem que eles participassem do processo de aprendizado, em “comunhão” com os educadores. Sílabas depois, portanto.

Alfabetizado pela Caminho Suave, eu jamais havia imaginado que a minha cartilha era invenção de opressores da classe dominante. No dia seguinte, li Pedagogia do Oprimido, a suma teológica de Paulo Freire, na edição da Paz e Terra. Foram os quatro capítulos mais desérticos que atravessei. Se ainda sei diferenciar as coisas, trata-se de um amontoado de opiniões ideológicas lastreadas em quase nenhum fato. Anos mais tarde, já na Veja, escrevi uma pequena matéria sobre a história de que Paulo Freire, com o seu método, alfabetizara 380 adultos em Angicos, no Rio Grande do Norte, em apenas 40 horas de aula, em 1962, sob os auspícios do governo João Goulart. Há controvérsias. Parece que o feito é tão real como relatórios de produção de uma fábrica da União Soviética.

Ao fim e ao cabo, não acho que Paulo Freire seja o maior culpado da nossa miséria escolar. Ele é somente um dos culpados — inclusive ao inculcar a ideia de que se deve alfabetizar adultos em massa. Os militares fizeram uso dessa ideia e criaram o Mobral, que serviu apenas para alastrar o analfabetismo funcional. O negócio é alfabetizar crianças. Se vai começar pelas sílabas arbitrárias ou não, pouco importa. O essencial é que, ao final, elas não usem cê-cedilha em “opressor”. A verdade é que nossas escolas sempre foram ruins, com as exceções de praxe. Elas demonstraram que era possível piorar quando passaram a ser centros de doutrinação. Mas há muitos doutrinadores ideológicos capazes de transmitir uma visão “bancária” do conhecimento aos alunos. Eles podem ser bons nisso.

A prova está num cruzamento dos resultados do Pisa encomendado pelo Estadão. Ele mostra que alunos de escolas caras de São Paulo tiveram desempenho superior aos estudantes da Finlândia, cujo sistema educacional é citado como modelo de eficiência. Essas escolas caras estão repletas de doutrinadores. Só que os doutrinadores dos opressores são melhor formados na visão “bancária” do conhecimento do que os doutrinadores dos oprimidos. Se os segundos fossem tão bons quanto os primeiros, o Brasil não estaria na rabeira do ranking do Pisa. É a visão “bancária” garantida por um currículo oficial submetido à eterna vigilância da sociedade, e bem ensinado mesmo que a contragosto por professores de qualquer posição política, em escolas reformadas e limpas, que permitirá que pelo menos 10% dos brasileiros aprendam a separar fato de opinião — e, desse modo, distinguir com mais clareza o que é conhecimento do que é ideologia. A maioria da molecada é mais esperta do que imaginam os guias dos povos, não é vaquinha de manobra. A doutrinação entra por um ouvido e sai pelo outro. Se assim não fosse, já seríamos uma Coreia do Norte tropical.

A Bia não vai ler este artigo, imagino, mas gostaria de agradecer a ela por aquela noite esclarecedora na Fundação Getúlio Vargas. E por me fornecer o Zeitgeist do início dos anos 80.

Crusoé

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