Bastidores

Ninguém controla a desigualdade (por Leandro Narloch)

2 de novembro de 2019 às 14h00
Menino come um pedaço de pão na favela Cidade de Deus. A desigualdade social continua sendo um problema sério no Brasil (Felipe Dana / AP/VEJA)

Os chilenos saíram às ruas em protesto contra o governo e, diz a imprensa, contra a desigualdade social. Talvez tenham sucesso no primeiro objetivo, mas o segundo é um pouco mais complicado.

É ilusão achar que controlamos a desigualdade de renda ou de patrimônio. Ela não está nas mãos de políticos bem-intencionados ou de manifestantes furiosos. É algo que surge de baixo para cima, fruto das escolhas e da interação de milhões de pessoas, e não da vontade de algum planejador social.

Um chileno de fato preocupado com a desigualdade deveria, por exemplo, evitar se casar com alguém da mesma classe. Pois o casamento é um motor cada vez mais potente de concentração de renda. Ricos costumam se casar com ricos, pobres com pobres. De um lado, a renda se acumula; do outro, a pobreza se agrava.

No passado, casamentos entre classes diferentes eram frequentes (o executivo e a sua secretária) e dispersavam o dinheiro. Hoje os casamentos seletivos estão mais comuns (o executivo e a executiva; o casal que se conhece na universidade). O economista Alparslan Tuncay, da Universidade de Chicago, concluiu que isso explica um terço do aumento da desigualdade americana entre 1960 e 1980. Um estudo da FGV de 2017 mostrou um efeito semelhante no Brasil.

A entrada das mulheres no mercado de trabalho, aliás, é o caso de boa notícia que aumentou a desigualdade. Nos anos 1950, em geral só as pobres trabalhavam — como telefonistas, secretárias, enfermeiras — enquanto as ricas ficavam em casa. A emancipação feminina aumentou mais a renda das famílias ricas que das pobres (onde as mulheres já trabalhavam).

O chileno pró-igualdade também deveria deixar de usar os serviços da Uber, da Netflix e do Facebook. Essas empresas são máquinas de concentração de renda. Antes delas, o dinheiro se dividia em milhões de cooperativas de táxi, canais de TV, jornais e revistas locais. A tecnologia criou mercados em que o vencedor leva tudo — uma única empresa domina todo o mercado mundial. O dinheiro se concentra, mas os consumidores têm acesso a bens melhores e mais baratos.

No Brasil, um fenômeno que encolheu a desigualdade passou longe da decisão de políticos: a demografia. Por muito tempo, as mulheres mais pobres tiveram muito mais filhos que as ricas. A renda per capita diminuía, assim como o investimento na educação de cada filho. Já as famílias ricas tinham poucos filhos, investiam muito na educação deles e não inundavam o mercado com trabalhadores qualificados, o que garantia salários altos.

Essa diferença de fecundidade despencou de 4,5 filhos por mulher em 1970 para 1,8 em 2005. Se não tivesse caído, em 2010 os brasileiros mais ricos seriam donos de 62% da renda nacional, e não de 45%, segundo um estudo do IPEA. (Propaganda: explico isso em mais detalhes no Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira).

Walter Scheidel, historiador de Stanford, analisou a desigualdade na história do mundo e descobriu o mais eficiente (talvez o único) nivelador de renda: as tragédias. Guerras, cataclismas e crises econômicas costumam devastar a riqueza em geral — a concentração diminui simplesmente porque a riqueza desaparece.

Pensando bem, se continuarem a destruir o país como fizeram nas últimas semanas, os manifestantes chilenos talvez consigam diminuir a desigualdade.

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