Bastidores

A democracia precisa de culpados (por Mario Sabino)

2 de novembro de 2019 às 13h00

Por quanto tempo um país democrático suporta conviver com perguntas para as quais não há respostas definitivas, sem que a crença nas suas instituições se esfacele completamente? Creio que não por muito tempo, se a quantidade de perguntas irrespondíveis vai-se avolumando. Estou falando, é óbvio, de interrogações sobre acontecimentos graves, capazes de mudar o destino nacional.

Desde a redemocratização, várias perguntas sem respostas definitivas — ou sem resposta nenhuma —pairam sobre nossas cabeças com uma leveza insustentável. Quem mandou matar Celso Daniel? Quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes? Quem mandou matar Jair Bolsonaro? Quem paga os advogados de Adélio Bispo de Oliveira, que tentou matar Jair Bolsonaro? Quem pagou os hackers que invadiram o Telegram de Deltan Dallagnol e uma penca de autoridades e jornalistas, a fim de matar a Lava Jato? Quem paga os advogados dos hackers presos?

O Brasil não consegue encontrar os culpados de mais de 90% dos crimes que ocorrem no país, o que por si só já é suficiente para erodir bastante a crença nas instituições — e, quando os encontra, a Justiça tarda e falha ou se apressa em absolvê-los por meio daquele argumento tropical de excesso de provas. Mas, sem querer estabelecer uma hierarquia nessa tragédia, o que dizer da irresolução de crimes que, repito, moldam os rumos do país?

Muitos leitores certamente comentarão que está na cara que Lula e companheiros seus mandaram matar Celso Daniel ou que o PT mandou matar Jair Bolsonaro. Outros dirão que está na cara que foi alguém ligado à família Bolsonaro que deu ordem para que executassem Marielle Franco e Anderson Gomes. O mesmo vale para o episódio dos hackers: está na cara. Só que o está na cara não vale nada sem que haja prova — e entre o está na cara e a falta de prova, a crença nas instituições desmorona e uma quantidade cada vez maior de vozes começa a clamar para que aventureiros arrebatem a coisa toda, a fim de restaurar o que esses mesmos aventureiros se encarregarão de continuar a destruir.

A democracia representativa deve ser um valor universal, concordo. A democracia representativa é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros: também estou de acordo. Antes de mais nada, contudo, a democracia representativa é uma fé — e é por isso que a expressão “fé na democracia” soa tão natural aos nossos ouvidos. Nem todas as culturas a assimilaram, e muitas delas nem mesmo fazem a mais remota noção do que seja essa fé, como demonstra boa parte do países da África e do Oriente próximo ou distante. A democracia é fé e também o objeto dela, em Santíssima Dualidade. Quando se perde tal fé, a democracia igualmente se esvai. A fé na democracia é frágil mesmo quando ela é forte. John Adams, o segundo presidente americano, escreveu:

“Lembre-se, a democracia nunca dura muito tempo. Ela logo se desperdiça, exaure-se e mata a si própria. Ainda não houve democracia que não tenha cometido suicídio. É inútil dizer que a democracia é menos vaidosa, menos orgulhosa, menos egoísta, menos ambiciosa ou menos cobiçosa do que a aristocracia ou monarquia. Essas paixões são as mesmas em todos os homens, sob todas as formas de governo e, quando não são controladas, produzem os mesmos efeitos de fraude, violência e crueldade. Quando se abrem oportunidades para que a vaidade, o orgulho, a cobiça ou a ambição sejam facilmente satisfeitos, é difícil para os mais prudentes filósofos e mais conscienciosos moralistas resistir a essas tentações.”

Diante de tantas perguntas sem respostas definitivas, entre o está na cara e a falta de culpados, pavimenta-se o caminho para a mentira, a mistificação e, no seu rastro, as oportunidades para que a democracia se suicide por nossas próprias mãos. E ela pode ser suicidada não apenas quando se bole com os granadeiros nos bivaques, mas quando elegemos fraudadores travestidos de prudentes filósofos e conscienciosos moralistas, entre outras fantasias.

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