Opinião

Um palanque (de novo) em Monteiro

30 de agosto de 2019 às 09h45 Por Heron Cid
Solenidade de inauguração do Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco, na cidade de Monteiro (PB) © Raniery Soares. O trecho foi inaugurado duas vezes

(São Paulo) –  Protestar é legítimo.  Reclamar, igualmente. Espernear, não. O que o PT e outros partidos desse campo articulam para este domingo, em Monteiro, é um ato eminentemente partidário.

É parte da contraofensiva que tenta dar algum rumo à esquerda brasileira, ainda perdida pós-2018, e uma empreitada para sair da pauta única do Lula Livre, da qual é refém.

Tanto que o ato em Monteiro, supostamente para garantir a manutenção do bombeamento das águas para o Açude Boqueirão, integra um calendário de atividades, entre as quais se inclui o S.O.S Amazônia.

Particularmente, no caso da Paraíba, o protesto mais coerente seria gritar pela celeridade das obras do Eixo Norte, com entrada pelo Sertão, que se arrasta há anos e cuja nova previsão (mais uma!?) vai ao primeiro trimestre do próximo ano.

No Alto Sertão, culturas inteiras foram dizimadas e a recarga dos açudes foi sofrível. Não há um dado ou sinal de garantia hídrica para os próximos anos.

E pouco se diz sobre.  Não há uma iniciativa pujante que cobre pressa, um protesto digno do nome e à altura da necessidade.

Bem  ou mal, a água já chegou no Compartimento da Borborema e no Cariri.  Lá, a questão é de gestão, porque já existe canal e toda uma estrutura para garantir o abastecimento.

Da forma como a Transposição foi concebida, a gestão das águas é um grande desafio. Basta lembrar que em abril de 2018, Monteiro, símbolo da obra na Paraíba, ficou sem água.  Não é problema novo e, infelizmente, a solução vai demandar muita técnica e menos política.

Se esse debate em curso fosse técnico e verdadeiro, autoridades e especialistas deveriam se mobilizar para planejar o que fazer depois da chegada das águas.

Qual projeto de desenvolvimento agrícola e econômico existe da parte do Estado e do Governo Federal, em conjunto com prefeituras beneficiadas pela obra?

A resposta todos sabem: nenhum.

A  Paraíba e o Nordeste podem e devem pensar além e se preparar para isso. Reduzir o potencial da Transposição ao abastecimento humano é manter a lógica superada da indústria da seca. É pequeno, muito pequeno.

Transformá-la, de novo, em palanque extemporâneo é tristemente menor ainda. Minúsculo.

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