Opinião

Uma comissão provisória, um problema a prazo

17 de agosto de 2019 às 15h30 Por Heron Cid
Queda de braço de Ricardo Coutinho com Edvaldo Rosas gerou fratura exposta no partido com consequências imprevisíveis (Arte: Antônio Vinicius/Blog Heron Cid)

O presidente nacional Carlos Siqueira se esforçou para amenizar a antipatia da medida extrema tomada quando decidiu decretar a dissolução do diretório eleito do PSB da Paraíba.

Tratou de enfatizar que o ato não é de intervenção, mas de auto-dissolução, que demandou, por consequência, a providência da formação de comissão provisória.

Retórica, claro.

O dirigente nacional do partido sabia que o encaminhamento foi atípico, de ruptura das regras internas e do jogo democrático.

Nem o MDB da Paraíba, conduzido com mão de ferro pelo cacique José Maranhão, chegou a tanto. No seu momento mais grave (1998), houve disputa voto a voto.

O desfecho autocrático é fruto do movimento de uma ala do PSB paraibano pela destituição do presidente eleito Edvaldo Rosas. Uma manobra política esperta com direito a coleta secreta de assinaturas de cartas renúncias de diretorianos e suplentes.

Na queda de braço iminente pelos votos de 51 diretorianos, aliados de Ricardo Coutinho não quiseram correr risco. Verticalizaram o processo. O resultado pragmático: Ricardo 1 x 0 Rosas.

Com o despacho cartorial, a direção nacional mandou dizer a quem interessar possa que decidiu em favor de Ricardo, antes de qualquer entendimento com o atual presidente e sem ausculta ao atual governador da legenda, João Azevêdo, este silente diante da conturbação.

Se assim procedeu e prolatou esta pedagogia, o comando do PSB repetirá a toada na formação da “comissão provisória”, embalada de presente para a unção de Coutinho.

O que resta a Rosas e aos que declaram apoio pela sua manutenção? Participar do processo e disputar com sua liderança máxima, mesmo com todas as digitais de cartas marcadas, ou simplesmente entregar os pontos e se ausentar do que prenuncia um jogo jogado?

Pelo sim, pelo não, a agitação generalizada e levada ao ápice pode respingar no governador João Azevêdo, inclusive na governabilidade, a depender de qual posicionamento ele adotará.

O momento é complexo no PSB. O salto injustificado no calendário interno decretou uma disputa interna precoce e altamente beligerante.

Traumático como está sendo, dificilmente o partido sairá dessa sem fraturas e danos colaterais. A comissão provisória tende a parir um problema permanente, sem prazo definido.

Mas até aqui, ninguém dentro da sigla consegue responder a uma singela questão posta: qual fato ou urgência justifica a pressa desabalada em destituir um presidente e um diretório eleito e condecorar Ricardo Coutinho, já presidente da Fundação Nacional do PSB?

Um ricardista juramentado arriscou uma resposta, ontem, ao Blog, sem cerimônia e com certa rispidez: “Porque ele (Ricardo) quer”. Simples assim.

Particularmente, não dá pra crer. Só algo muito estratégico e delicado levaria Ricardo a ser induzido (ou seduzido) ao ponto de descer e trocar a estatura de líder aclamado que sempre foi no PSB pelo posto pouco alvissareiro de interventor.

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