Bastidores

Fé e democracia (por Hélio Schwartsman)

12 de junho de 2019 às 10h00
Fachada do Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, no Brás, centro paulistano Fachada do Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, no Brás, centro paulistano - Reinaldo Canato/UOL/Folhapress

Como ateu de terceira geração, não tenho simpatia por nenhuma religião. Todas elas me parecem uma tentativa meio infantil de convencer-se de que a vida tem um sentido transcendente. Não tem.

Não espero, porém, que todos concordem comigo. Só mencionei meu histórico religioso para mostrar que minhas convicções anticlericais são democráticas, o que me permite dizer que percebo na “intelligentsia” certo preconceito antievangélico, em especial contra a Igreja Universal.

É provável que as lideranças de alguns desses grupos sejam mais picaretas que a média das denominações neopentecostais, que seja mais picareta que a das religiões tradicionais. Esse, contudo, é um juízo sociológico, que não deveria autorizar diferenças no tratamento que o poder público dispensa a cada fé.

Nesse contexto, parece-me complicado equiparar o sacerdócio a um emprego regular e aplicar-lhe as regras do direito do trabalho, como o Judiciário fez com a Universal, tendo-a condenado por induzir pastores a fazerem vasectomia.

Cada religião deve poder determinar livremente seus requisitos para o sacerdócio. Se não for assim, teríamos de examinar se o veto da Igreja Católica ao sacerdócio feminino não viola regras contra a discriminação de gênero, se as mesquitas estão observando corretamente a cota legal de deficientes entre clérigos e até mesmo se as sinagogas não estão descumprindo a Lei Antirracismo, ao bloquear a contratação de rabinos não judeus.

Se há uma esfera em que lógica e razoabilidade não se aplicam, é a da religião. Numa tradição, quem receber uma transfusão de sangue estará irremediavelmente condenado a arder no inferno. Em outra, é terminantemente proibido misturar carne com leite. Numa terceira, amealhar toneladas de dinheiro é marca insofismável da graça divina. Não cabe ao Estado democrático se meter nessas questões, que são indecidíveis, mas apenas assegurar a plena liberdade religiosa.

Folha

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