Bastidores

Ney Suassuna, o “rico besta”

11 de junho de 2019 às 17h05
Ney Suassuna não se constrange: em vários episódios da política paraibana, sua mala pagou a conta

Faz tempo que o paraibano Ney Suassuna ultrapassou seu primeiro milhão de reais, meta que tinha como lema pessoal e obsessão profissional. Na década de 80, graças ao incentivo da Ditadura Militar o empresário consolidou sua fortuna com uma rede de escolas, fortalecida pela decisão de suprir educação nas regiões remotas onde o governo construía usinas. Foi o que ele contou ontem ao autor do Blog durante entrevista ao Frente a Frente, da TV Arapuan.

Além de atingir o título de milionário, Ney tinha objetivos intelectuais (formação acadêmica, livros) e política. Foi o sucesso empresarial que abriu essa porta. E ele mesmo confessa. Começou na política paraibana como trem pagador quando foi candidato a senador por uma sublegenda, a convite de Humberto Lucena. “No final, eu paguei seis milhões de cruzeiros para o candidato a senador do MDB, contou, sem citar nomes, embora a história revele.

De lá pra cá, Ney virou o cofre das campanhas emedebistas da Paraíba. Tanto que o excesso de sinceridade lhe fez confidenciar em tom jocoso: “Política serve para pobre sabido e rico besta. Eu sou da segunda categoria”, disse com sorriso no canto da boca.

O MDB, seu ex-partido, recorreu a ele até quando foi fazer uma homenagem ao ex-governador Tarcísio Burity, a quem considera como injustiçado na Paraíba. “Maranhão disse que o MDB pagaria o sepultamento. Sobrou para mim, ainda hoje tenho o recibo guardado”, revelou.

Essa foi apenas uma de muitas revelações na descontraída conversa, gravada semana passada e exibida ontem. Teve mais, como a atitude de juntar, em jantares e almoços, os “descamisados” do Senado e da Câmara, estratégia que rapidamente lhe deu a condição de líder do MDB no Senado, ministro da Integração e vice-líder de Lula.

Nessa época, arranhou um inimigo: o todo poderoso senador Sérgio Cabral, com quem, enquanto líder, divergiu na distribuição de espaços nas comissões temáticas da Casa. Hoje, diz ter pena do ex-governador preso: “Duzentos anos de cadeia é um negócio sério demais”, exclamou.

A passagem pela liderança de Lula também ligou as antenas do atento paraibano. “Eu comecei a desconfiar quando o cara que chegou com sapato Vulca Brás de repente passou a usar um de R$ 4 mil. Quando trocou um terno simples por um italiano”, diz, sobre os primeiros indícios de corrupção na Era PT.

Ney assegura que a denúncia que gerou a CPI das Sanguessugas teve origem numa disputa política interna no Senado. Ele seria candidato a presidente. “Era um complô de três senadores que não queriam que eu fosse presidente do Senado. Dois morreram e devem estar no inferno com um ferro na boca”, atirou.

Um deles era Jeferson Perez, o relator que recomendou a cassação de Ney, tido e havido como um dos beneficiários. A referência ao algoz, hoje falecido, é no mínimo hilária e desprovida de qualquer pudor ou sentimento cristão, religião que Suassuna diz professar: “Ele era casado com uma senhora que pesava duas toneladas e meia e me dizia que ela mandava em tudo e que ele não podia nem escolher a roupa que vestia”. Essa história, num rompante de vingança, o próprio Ney diz ter contado em público no Senado.

Ney diz querer voltar ao Senado para dizer algumas verdades. Uma delas é a discordância do modelo que vigora no judiciário. “A força-tarefa faz uma união (MP e Judiciário). Terminam sendo tão pressionantes entre si que você mesmo sendo inocente está condenado, porque você não tem defesa. O Estado está contra você”, reclama.

O ex-parlamentar recorda de sua via crucis no episódio dos Sanguessugas. “O MP disse que um dinheiro tinha sido depositado na conta de um genro meu. Eu tenho três filhos homens e nenhum é gay. Seis anos depois o MP que me acusou disse que as acusações eram improcedentes”, criticou.

Ney confia no êxito do Governo de Jair Bolsonaro, com quem fez amizade ainda nos tempos parlamentares. Os dois se encontravam no retorno ao Rio de Janeiro nos aviões de carreira. Moradores da Barra da Tijuca, aprofundaram a amizade. “Na minha casa fiz dois jantares para ele. Convidei todas as pessoas no bairro que ele queria”, historia sobre o período pré-eleitoral de 2018

Um dos problemas enfrentados por Bolsonaro, pensa Suassuna, é o aparelhamento de 13 anos de poder do PT: “Desaparelhar o PT é como extirpar um câncer, é por pedaço”, ironiza. Para Ney, “Bolsonaro é um herói” por ter sobrevivido a facada e vencido as eleições, entre cirurgias e bolsa de colonoscopia.

Se pudesse dar um conselho a Boslonaro, Ney recomendaria dois: afastar o “guru” Olavo de Carvalho seria um. O outro envolve os filhos do presidente: “Eu queria que eles falassem menos”. O primeiro já entrou em prática. O segundo já é querer demais…

A trajetória de Ney Suassuna não deixa dúvida. Ele só é o “rico besta” de hoje porque soube ser, antes, um pobre pra lá de sabido.

Vídeo

Entrevista: Anísio, da “roça” da suplência à “produção” da Assembleia


In Gilmar we trust

Dona Candinha acha que os corruptos estão parafraseando o diálogo de Moro e Dallagnol sobre Fux e conversando entre si:

"Em Gilmar Mendes nós confiamos!"

PONTO DE INTERROGAÇÃO
Se a moda pega e hackers começarem a vazar conversas entre magistrados e promotores nos estados?
NÚMERO

R$ 5.443.865,48

Valor empenhado pela Prefeitura de Campina Grande para pagamento de combustíveis, no ano de 2018, segundo relatório de auditoria do TCE, que alertou o município por maior eficiência na compra.