Opinião

Como ler, “fora da caixa”, as mensagens vazadas

11 de junho de 2019 às 11h33 Por Heron Cid

Até um olhar epidérmico, desprovido de paixões políticas, admite: houve excesso nas conversas divulgadas até aqui entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. Ambos extrapolaram seus papéis institucionais.

Isso significa que a Lava Jato foi um grande complô e que Lula, o PT e mais outras dezenas de partidos implicados são inocentes e vítimas de uma grande conspiração? Claro, que não. Uma constatação não muda outra. São pequenas a chance real de anulação de processos, avaliam especialistas e ministros.

O que foi revelado alerta, na verdade, para distorções e até abusos no sistema judiciário, que não devem ser naturalizados, mesmo quando a justificativa seja a mais republicana e de interesse público, como o meritório combate à corrupção.

Porque numa democracia não vale tudo. Muito menos no Judiciário, sobre quem repousa o peso do cumprimento das regras constitucionais. A Justiça é o último bastião que não pode cair na tentação de agir fora da lei.

Mas faz algum tempo que no Brasil é quase impossível se vacinar da patologia obrigatória de ostentar um “lado”, independente dos fatos. O caso recente das mensagens vazadas é típico dessa pobre polarização.

Nas redes, uma turba petista grita aos quatro ventos que o material prova a “inocência” de Lula. Na outra ponta, antipetistas dizem que magistrado e procurador em nada erraram, mesmo ultrapassando o limite do papel de cada um.

Nem um e nem outro.

Apontar excessos dos dois envolvidos e mais outros procuradores não transforma o sujeito, automaticamente, em inimigo da Lava Jato. Até porque os processos de Lula foram revisados em mais duas instâncias, sem nenhuma alteração. E também não torna o ex-presidente um mártir.

Por incrível que pareça, circular fora dessa dicotomia não é o mais confortável. A zona de conforto é tomar para si um “lado” e ir para a trincheira cega, como advertiu o rapper Mano Brown. É preparar o lombo para apanhar dos dois lados.

Celso Rocha de Barros, na Folha, sintetizou: “É uma hora difícil para pedir nuance e equilíbrio, mas vamos lá: a Lava Jato não foi desmoralizada, ninguém foi inocentado. Mas há bons motivos para suspeitar que não houve equidistância no entusiasmo com que os dois lados da disputa política foram tratados”.

A polêmica nos ensina que é tempo de equilibrar a luta contra a corrupção com a proteção a direitos. Simples assim. Mais do que nunca, é indispensável pensar fora de uma das caixinhas. Em tempos de cólera, uma dose de lucidez não faz mal a ninguém.

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