Bastidores

Quando Olavo de Carvalho se encontra com Daenerys Targaryen (por Reinaldo Azevedo)

3 de maio de 2019 às 14h00

Com menos de um mês na ribalta, ninguém desempenha tão bem o papel de “clown” dessa comédia sinistra que é o governo Bolsonaro como esse tal Abraham Weintraub, o ministro da Educação que resolveu combater “a balbúrdia” de esquerda nas universidades federais aplicando-lhes cortes punitivos de verba, entre outros improvisos. Sua retórica reacionária e beligerante mal esconde a falta de projeto, de perspectiva, de preparo técnico. Observem que o bolsonarismo nunca comparece ao debate com dados e estudos a justificar essa ou aquela medida. Tudo se resolve na base do improviso, ao qual se aplica o “viés ideológico”. Personagens que só deixariam o legado do seu ressentimento incompetente vivem seus dias de fama.

Se há um aspecto positivo neste governo, ele está em marcar, na prática, a diferença entre liberais e arruaceiros populistas de extrema direita. Observem que escrevi ali a expressão “na prática”. É importante porque eu a emprego como a outra face da experiência, que é a teoria. Como resta evidente a cada dia, inexiste aporte teórico “nisso daí”. As coisas vão sendo feitas à matroca. Exceção à reforma da Previdência, que se aproveitou de um estoque razoável de estudos para chegar à proposta que está no Congresso —a despeito de erros políticos brutais, incluindo os de Paulo Guedes—, nada mais existe.

O que se tem é uma noção tão imprecisa como agressiva de que o país estava sendo sufocado por “eles”, os esquerdistas, os comunistas, os “red walkers”. Não por acaso, um certo Filipe Martins, assessor especial de Bolsonaro, recorreu ao Twitter dia desses para evidenciar seus referenciais teóricos. Escreveu o mestre: “Como (quase) todo mundo, estou na expectativa pela volta de ‘Game of Thrones’, série formidável que aborda, dentre muitos outros, um dos meus temas favoritos: o perigo de apostar todas as fichas no pseudorrealismo maquiavélico e na falsa esperteza pragmática”.

Já tivemos poderosos que citavam Max Weber, como FHC, ou partidas de futebol, como Lula. Não estou fazendo um contraste. Com adequação, pode haver pertinência numa coisa e noutra. Ocorre que o sociólogo não fazia de conta que Weber era um zagueiro, e o ex-operário não fingia que um zagueiro era Weber. As coisas mudaram. Os poderosos da hora extraem lições de política e de moral de seriados de TV e de extremistas de direita que se dedicam à autoajuda na internet. Esses são os mais sofisticados. O presidente prefere simular pistolas com a mão e as quer circulando aos montes, com a chancela de Sergio Moro, a grande referência moral, jurídica e gramatical “disso daí”.

Martins deve ser da turma que acredita que Maquiavel realmente pregou que “os fins justificam os meios”. É pouco provável que tenha ido à fonte. Pergunto a propósito: o “pseudorrealismo maquiavélico” implica a existência de um “verdadeiro realismo maquiavélico”, ou o maquiavelismo, vulgarmente tomado como sinônimo de amoralidade e conspiração, é, por si, um falso realismo? Também não está claro se a “falsa esperteza pragmática” é uma sinonímia desdobrada do “falso realismo” ou a sua contraface, ambos igualmente desprezíveis.

Em qualquer caso, o pensador tem uma recomendação a seu assessorado: “Propósitos superiores e transcendentais são imprescindíveis para uma perspectiva real de poder e que, sem honra e senso de dever, nenhuma ação pode estender-se para além da vida do agente que a colocou em curso”. Parece ser uma mistura de Olavo de Carvalho com Daenerys Targaryen, a senhora dos dragões. Ou por outra: não tendo o que dizer, use a língua como lança-chamas.

Esse palavrório nem sentido faz. Serve apenas de abrigo retórico para a idiossincrasia e a incompetência. A “transcendência” é só mais uma rima pobre para a truculência verbal ineficiente, descolada da realidade, a justificar os métodos de ocupação do Estado que bolsonaristas e olavetes acusavam o PT de promover e praticar. Carvalho, note-se, resumiu assim o leninismo, numa frase que ele atribui a Lênin, sem a citação de fonte, como é hábito no autoproclamado filósofo e professor: “Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz”. Aboletados no Estado, muitos experimentando o seu primeiro emprego já depois dos 30, engalfinhando-se por nacos de poder, esses valentes, não obstante, continuam a acusar as esquerdas de aparelhar o Estado. Xingue-os do que você é. Acuse-os do que você faz. Nota final: Weintraub tem de conviver mais com gente pelada. Vai descobrir que não é uma categoria de pensamento.

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