Bastidores

O Brasil entre a Muzema e a Notre Dame (por Maria Ribeiro)

17 de abril de 2019 às 17h00

No prédio onde eu moro, em São Conrado, os porteiros, como o seu Manoel, usam terno e gravata. A portaria, sempre climatizada graças ao ar-condicionado potente, tem poltronas Barcelona, cadeiras Sergio Rodrigues e esculturas do Brennand. Pra entrar no condomínio, de frente pra praia “do Pepino”, como se diz, você precisa dar o número da sua carteira de identidade e, dependendo do horário, enfrentar uma fila que pode chegar a 20 minutos. Isso se você for pedestre! Se estiver de carro, a burocracia é menor: basta dizer seu nome e o nome do morador que pretende visitar, e os portões de ferro imediatamente se abrirão para seu documento em forma de possante. Ah, Brasil…

Em contrapartida, se algum dia o leitor vier jantar na minha casa, ou na casa de algum vizinho, verá que a sensação de segurança é imensa: moro neste apartamento ha quase três anos e nunca ouvi falar de nenhum assalto… Pra mim, e acho que pra quase todo ser humano que se preza, nada vale tanto quanto o sono dos justos. Nem piscina, nem sala de ginástica, nem play pras crianças. Dormir! Pois bem. Nesta nada modesta construção, concluída em 1985, os condôminos, eu incluída, podem dormir absolutamente tranquilos: aqui, muito provavelmente, ninguém vai ser acordado de forma violenta!

Corta. Na última sexta-feira, 12 de abril, a filha do seu Manoel — aquele que trabalha de terno e gravata e sempre me abre a porta sorrindo — não teve a mesma sorte. Essa, do sono dos justos. A filha do seu Manoel, e também vários outros filhos, e pais, e mães de pessoas com quem, muitas vezes, cruzamos diariamente — sem quase nunca saber suas histórias —, morreram de forma violenta e triste, assassinadas pela cada vez mais rica e sangrenta milícia do Rio de Janeiro. Eram mais ou menos seis horas da manhã quando caíram os prédios da Muzema. Até ontem — ainda há desaparecidos — 16 brasileiros, muitos migrantes nordestinos em busca de uma remuneração melhor no Sudeste, perderam suas vidas pro que a Mangueira batizou de forma cirúrgica de “o país que não tá no retrato”.

Ou alguém aí tira foto na Muzema? Ou em Rio das Pedras? Ou na Rocinha? Posso falar por mim. Representar a mim mesma, como disse Mano Brown no comício de outubro em favor de Fernando Haddad. Eu nunca entrei na Muzema, não conheço Rio das Pedras, e só passei a frequentar a Rocinha de dois anos pra cá. A responsabilidade também é minha. Minha, que sigo dormindo apesar de saber que há dez dias um pai de família teve o carro alvejado por 80 tiros — disparados pelo Exército! — quando ia a um chá de bebê. Minha, que mantenho normalmente a rotina mesmo consciente do abismo social que me separa dos que há anos me servem café e lavam meu banheiro. Minha, que só fui informada da morte da filha do meu porteiro por causa da Maria, cuja casa — que fica, adivinhem?, em Rio das Pedras — nunca conheci, mesmo ela trabalhando na minha casa há quase dez anos.

Antonia, a filha do seu Manoel, tinha 31 anos e foi enterrada ontem. Enquanto isso, na minha timeline, selfies diante da Notre Dame dominavam o Instagram.

O Globo

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NÚMERO

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