Opinião

Dom Delson, o apascentador

16 de abril de 2019 às 11h57 Por Heron Cid

Dom Manoel Delson Pedreira da Cruz, um filho da pequena Biritinga (BA), assumiu o bastão num dos momentos mais delicados da Igreja Católica, mergulhada no desgaste de denúncias contra líderes e padres.

Dois anos depois daquela posse, acalmou ânimos e ainda luta para reunificar uma congregação rachada em correntes divergentes, um quadro de disputa de poder que explica em parte o desfecho trágico da passagem de Dom Aldo Pagotto por aqui.

O perfil moderado que tem sido o seu principal aliado também é alvo de questionamentos. Afinal, Delson sucede arcebispos como Pagotto, Marcelo Cavalheira e José Maria Pires, profundamente engajados em lutas políticas, cada um dos quais com seu viés e opção ideológica.

O distanciamento é uma opção do atual chefe da Igreja paraibana. Isso ficou alvo como a brancura da camisa que escolheu para a entrevista ao autor do Blog, ontem, no Frente a Frente, da TV Arapuan:

“Eu creio que não é o papel do arcebispo fazer militância política. Depois da Constituição de 1988 entramos em uma fase boa para o país com a redemocratização. O cidadão cresceu, amadureceu e tem espaços. As organizações sociais, os sindicatos, os partidos políticos. É um momento que os leigos, o cidadão de uma forma geral tem amplo espaço para fazer a sua política. Não necessita que a igreja esteja dizendo o que ele tem que fazer ou não fazer”, revidou.

“O cidadão tem autonomia. Porque é que a igreja tem que dizer sempre vote aqui? Acho que é uma questão de respeito. Principalmente agora que foi declarado que o país é laico e que a igreja tem que está no seu lugar e respeitar a autonomia do cidadão. Então eu entendo dessa forma. Em outras épocas o povo precisava de uma orientação por tantas circunstancias que existisse certa liderança que dissesse é por aqui que vocês vão. Hoje não é mais necessário. O cidadão ganhou um status de autonomia que a gente tem que respeitar. A igreja fala de políticas públicas, inspira, dá sugestões para que os católicos, os cidadãos, possam atuar na sociedade. Mas não é o bispo que deve dizer o que é certo ou errado politicamente”, argumentou.

Discreto, dom Delson escolheu a moderação como práxis de sua atuação na mediação de conflitos, a partir daqueles da própria economia interna da Igreja (que são muitos). Como recomenda o momento de tantos tensionamentos, faz o esforço de apascentador em meio ao fogo dos confrontos. Incendiário já tem demais.

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