Bastidores

Esquerda perdida. Por Antônio Delfim Neto

10 de abril de 2019 às 11h00

O triste espetáculo revelado no depoimento do ilustre ministro Paulo Guedes na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados no último dia 3 mostrou, a um só tempo, os seguintes pontos.

1º) A absoluta incapacidade política do PSL. Eleito pelo “vendaval” Bolsonaro, não sabe para o que está ali. Ignorou as medidas que dão suporte parlamentar aos ministros nos regimes republicanos e democráticos: a ocupação das cadeiras nas filas mais próximas do depoente e a exigência de que os arguidores sejam ordenados, sucessivamente, entre críticos e apoiadores. O PSL acovardou-se diante da cara feia da oposição.

2º) A nossa esquerda “infantil”, por outro lado, esmerou-se em manifestar o seu absoluto repúdio ao diálogo civilizado. Preferiu usar suas armas conhecidas: a gritaria organizada, a injúria contra o interlocutor e o completo desprezo pelas evidências empíricas.

Revelou que está mais de dois séculos atrasada com relação à esquerda jacobina que deu ao mundo em 1789 (ao lado de muita desgraça) a ideia de que somente uma república democrática poderia acomodar a liberdade com a igualdade, dois valores não inteiramente compatíveis.

Aquela esquerda tinha uma causa. Nos últimos 230 anos, a sua proposta se realizou, a tal ponto que hoje é “natural” reconhecer que só uma república democrática (sem adjetivos) é capaz de, pelo exercício da política, acomodar de forma pacífica e civilizada as diferenças, a intolerância e os preconceitos destes animais com inteligência perigosa —os homens.

Talvez seja interessante lembrar por que a esquerda adquiriu esse nome.

“Na Assembleia Nacional Constituinte de 1789, os deputados mais críticos da monarquia começaram a reunir-se nas cadeiras à esquerda do presidente. Os conservadores que a apoiavam congregaram-se à sua direita”, escreveu Geoffrey Hodgson em “Wrong Turnings: How the Left Got Lost” (The University of Chicago, 2018).

“O Barão de Gauville explicou: começamos a nos reconhecer. Os leais à religião e ao rei tomávamos distância à direita para evitar a gritaria, as imprecações e as indecências que circulavam livremente no campo oposto.”

Hodgson é um brilhante e insuspeito representante da atual esquerda adulta. Esta não usa a gritaria nem o baixo calão, mas a lógica para “inventar” instituições que, numa república democrática, acomodem, além de liberdade e igualdade, a eficiência produtiva, sem a qual a sociedade não sobrevive materialmente.

As tentativas fracassadas do socialismo mostram que não se trata de um problema trivial. A nossa esquerda, perdida, recusou, no grito, que Guedes pudesse esclarecê-la.

Folha

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