Bastidores

Na falta de coisa melhor, Deus acima de todos. Por Fernando Canzian

5 de abril de 2019 às 13h00
O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante sua passagem por Washington, nos EUA, neste mês - Brendan Smialowski/AFP

A direita nos Estados Unidos de onde escrevo nesta semana já se movimenta para desqualificar o democrata com maiores chances até aqui de confrontar Donald Trump na eleição do ano que vem.

Mais uma vez, usa a religião e o moralismo para afastar a atenção do eleitor dos problemas reais para o campo da especulação e da fantasia.

Ex-vice de Barack Obama, Joe Biden lidera pesquisas pela indicação democrata. Tem como ativo ser homem e branco, algo relevante nos EUA, e ter trabalhado com Obama —o que lhe confere simpatia entre negros e hispânicos (13% e 18% da população, respectivamente).

Ao indicar que anunciará em breve sua pré-candidatura, duas mulheres apareceram acusando-o de conduta inapropriada. Uma disse que Biden roçou seu nariz com o dela em 2009; outra, que ele a beijou na parte de trás da cabeça, em 2014. Os dois casos ocorreram diante de outras pessoas.

Casado com a mesma mulher desde 1977 e aos 76 anos, Biden nega conotação sexual e diz ter sido sempre uma pessoa afetuosa. Outras mulheres saíram em defesa do político.

Mas os ataques mais pesados, sobretudo de sites e canais conservadores como Fox News, concentram-se em declarações razoáveis de Biden sobre o aborto: “Minha religião me define e tenho sido um católico praticante a vida inteira. Sobre o aborto, aceito pessoalmente a posição da igreja de que a vida começa na concepção. Mas não temos o direito de dizer às mulheres que não podem controlar seus corpos”.

O uso hipócrita da religião na política não é invenção dos republicanos nos EUA, de líderes que agora vão em romaria a Jerusalém ou de bolsonaristas no Brasil. Em 1985, em um último debate entre candidatos à Prefeitura de São Paulo, o então senador Fernando Henrique Cardoso enrolou-se numa resposta sobre Deus, foi tachado de ateu e acabou perdendo para Jânio Quadros.

Mas é agora em países onde as pessoas se sentem cada vez mais vulneráveis economicamente que populistas sem programas consistentes conquistam o sentimento difuso de desproteção geral dos seres humanos que está na base da crença religiosa.

​Ao apelar para a fé e converter esse desamparo irremediável e inconsciente dos eleitores em votos, os populistas da religião acabam eximidos de maiores elaborações e propostas.

Já o eleitor fica na cômoda situação de não precisar se responsabilizar por nada. Segura na mão de Deus e vai.

Folha

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NÚMERO

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