Bastidores

A mão que apedrejou é a mesma que afaga. Por Bernardo Mello Franco

5 de abril de 2019 às 15h00
Alckmin (Adriano Machado/Reuters)

No dia em que lançou oficialmente a sua candidatura ao Planalto, Jair Bolsonaro atacou a aliança do PSDB com os partidos do centrão. “Quero agradecer ao Geraldo Alckmin por reunir a nata do que há de pior do Brasil ao seu lado”, disse.

Eleito presidente, ele continuou a desprezar as legendas que sempre estiveram no poder. Prometeu acabar com o “toma lá dá cá” e não trocar cargos e ministérios por apoio. Este discurso começou a ser abandonado ontem, no 94º dia do governo.

Numa maratona de quase 11 horas, Bolsonaro se reuniu com seis presidentes de partidos. Além de Alckmin, recebeu antigos desafetos como Ciro Nogueira e Geraldo Kassab, a quem já se referiu como “porcaria”. Foi uma rendição à “velha política” que ele prometia varrer de Brasília.

Nas conversas, o presidente distribuiu elogios, desculpou-se pelas “caneladas” e pediu ajuda para aprovar as reformas. O surto de humildade não foi de graça. Desde a posse, os amadores do Planalto têm levado um baile dos profissionais do Congresso.

Bolsonaro queria usar as redes sociais para emparedar a Câmara e o Senado. Os parlamentares mostraram que não se forma coalizão pelo Twitter. O governo passou a sofrer derrotas em série. Algumas foram mais humilhantes, como a aprovação da emenda que engessou o Orçamento.

A última lição veio na quarta-feira, quando Paulo Guedes ficou sozinho diante de um pelotão de fuzilamento na Câmara. Sem uma tropa para defendê-lo, o ministro virou alvo fácil para a oposição. Seu pavio curto agravou o desastre anunciado.

A audiência terminou em tumulto,e o economista precisou de socorro para deixar a sala. Saiu escoltado por seguranças, enquanto trocava ofensas com o deputado petista Zeca Dirceu. “Tchutchuca é a mãe, tchutchuca é a avó!”, vociferou o ministro.

A performance animou as redes bolsonaristas, mas não parece ter conquistado um único voto para a reforma da Previdência. O governo precisará de ao menos 308 para aprová-la em plenário. Até agora, não chegou nem perto de alcançá-los.

As desculpas de ontem não convenceram a maioria dos dirigentes partidários. Um deles abriu o jogo com Bolsonaro: disse que as siglas temem ser torpedeadas assim que o governo conseguir o que deseja. O presidente inverteu o poema de Augusto dos Anjos: a mão que apedrejou é a mesma que afaga. O problema é que ninguém sabe o que ela vai fazer amanhã.

O Globo
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