Bastidores

Um bom 2019. Por Delfim Neto

7 de novembro de 2018 às 17h00

Com moderação, é possível. O processo eleitoral de 2018 revelou muitas novidades.

Talvez a mais interessante delas foi a constatação que o ricos e enganadores programas mediáticos que vendiam o candidato como um novo sabonete, o cerco aos “pop stars” porque se supunha que quem os admirava aceitaria a sua recomendação de voto e a disputa desenfreada pelo “tempo de televisão” dissolveram-se no ar.

Uma nova tecnologia, barata e facilmente dominada, o WhatsApp, colocou nas mãos do eleitor potencial a possibilidade de solidarizar-se com um conjunto de outros cidadãos com “sentimentos” e “necessidades” semelhantes.

Isso lhes conferiu um poder que nenhum outro poder é capaz de controlar.

Ele não se esgotará na eleição e poderá ser usado pelo vencedor para “pressionar” os outros poderes, enquanto mostrar firmeza nas propostas que o elegeram, um elemento perturbador da independência dos três poderes.

O resultado é uma forma de democracia direta, com suas virtudes e riscos (agora aumentados) conhecidos desde Platão, na Grécia do século 4º antes de Cristo. O vencedor priorizou as necessidades prementes do eleitor: a falta de segurança pessoal, o desejo de “ordem”, a repugnância à corrupção estatal e o abuso da intervenção incompetente do Estado na atividade econômica.

Durante a campanha não se discutiu os programas de governo. O que estava em jogo eram questões preliminares de entendimento mais simples:

1) devolver ao Estado o monopólio da força para, dentro da lei, enfrentar as organizações criminosas cada vez mais ousadas que controlam, da cadeia, parte do território nacional;

2) ao mesmo tempo, retirá-lo do cangote do cidadão, com o liberalismo, e

3) tudo temperado com a “recuperação de valores familiares e religiosos” que podem, eventualmente, restringir a liberdade de minorias, se não for controlada pelo Supremo Tribunal Federal.

Ganhou Bolsonaro porque ele captou, muito antes de seus concorrentes, a “malaise” do brasileiro mediano e propôs uma solução que este aceitou.

Ele será, agora, o presidente de todos. Cabe à oposição não sabotar a missão de fiscalizá-lo, não de impedir que ele governe. É hora de jogar o jogo democrático. 2022 é amanhã e lá ele será julgado nas urnas pelo que fizer. Já demonstrou, entretanto, que pretende cumprir o que prometeu.

Deu todo o poder ao Ministério da Justiça e Segurança (com Sergio Moro) e ao Ministério da Economia (com Paulo Guedes) para, respectivamente, consolidar o combate à corrupção, enfrentar o crime organizado e mitigar a intervenção do Estado no setor privado. Se houver inteligência e prudência, pode dar certo.

Folha
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