Bastidores

Debate do SBT evidencia que PT sabe que tem de jogar 2 partidas. Por Reinaldo Azevedo

27 de setembro de 2018 às 08h27

O debate havido ontem no SBT indica que o PT está com o foco ajustado. Aqui e ali se lê que a estratégia foi desenhada por Lula lá na cadeia, em Curitiba. Não descarto porque, como se nota, burros são apenas aqueles que apostaram em sua burrice. A mim, parece apenas questão de bom senso. O PT sabe que joga duas partidas distintas. Uma é a do primeiro turno; outra, a do segundo. E cada uma requer um estilo de jogo. Notem: a vitória, na primeira partida, não está em chegar à frente de Jair Bolsonaro (PSL), mas em ocupar um dos dois lugares no segundo turno. E, no caso, talvez o melhor seja ficar em segundo lugar. Isso desestimula movimentos de voto útil já na primeira partida. Volto ao ponto daqui a pouco. Antes, algumas considerações.

Assisti ao debate nesta madrugada. Explica-se: ele se deu enquanto eu ancorava o programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. A fala mais reveladora destes dias deve ter sido a de Marina Silva (Rede). Segundo a candidata, se houver uma disputa final entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), ela não apoiará nem um nem outro. Não está claro se acha que se equivalem ou se trata uma eventual recomendação de voto como chancela ao governo que virá. Bem, nesses casos, a questão é sempre saber o que farão os eleitores. Dá para supor que os de Marina transitam em territórios mais próximos do petista do que do peesselista.

Sem Bolsonaro, com 27% das intenções de voto no Ibope, o alvo principal, como se esperava, foi mesmo Haddad, segundo colocado, com 21%. O ataque mais virulento partiu da direita: Álvaro Dias (Podemos) o acusou o partido de ser uma “organização criminosa” e lembrou as mortes dos então prefeitos de Santo André e Campinas, Celso Daniel e Toninho do PT, respectivamente. Na prática, tentou responsabilizar a legenda pelos assassinatos, ainda que o tenha feito de modo indireto. Na sublinha de sua fala, percebe-se o intuito de se colocar como uma espécie de porta-voz da Lava Jato. Parece que os fanáticos pela operação já têm seu líder. E não é ele. Nem00 nesse debate nem nos que o antecederam, Dias esboçou qualquer sombra de crítica ao candidato do PSL.

O petista também enfrentou artilharia pesada de seus ex-aliados no terreno mais à esquerda. Marina pegou carona na Injusta impopularidade do governo Temer e responsabilizou o PT por isso; afinal, ele só está na Presidência em razão da política pregressa de alianças do partido, disse. Ouviu de Haddad que devem responder por isso os que apoiaram o impeachment, como Marina. Ela treplicou lembrando que Haddad tem o apoio do senador Renan Calheiros (MDB) em Alagoas, que também apoiou a deposição de Dilma.

Ciro afirmou que, “se puder — notem a condicional —, governa sem o PT”. Na hipótese de ser eleito, pois, não descarta a possibilidade. O candidato do PDT insistiu na tese de que a polarização entre petistas e bolsonaristas está empurrado o país para a violência e acusou o petismo, reconhecendo méritos nos governos dos companheiros, de ter erigido uma “estrutura de poder odienta, que criou essa figura horrorosa que é o Bolsonaro”. Haddad pegou leve com seus críticos. Reagiu aos ataques afirmando ser preciso buscar saídas para os problemas do país. E eis o ponto que interessa.

O que se viu ali foi o “Haddadinho Paz & Amor”. Depois do embate, afirmou que espera, sim, contar com o apoio de Ciro e Marina se chegar ao segundo turno. Em encontro posterior, com artistas, deu a entender que é preciso buscar compreender, sem visões apocalípticas, mesmo o eleitorado de Bolsonaro. Observem: nesta fase, ainda que com escoriações decorrentes do embate e até a eventual perda um ponto ou outro, cumpre apenas assegurar um lugar no segundo jogo.

Aí, quero crer, estando no segundo turno, desenha-se, por força dos fatos, o cenário para o Armagedom, para a luta entre forças absolutamente opostas. O horário eleitoral do partido certamente mudará de tom. E o próprio Haddad deverá falar mais duro. Mas prestem atenção a uma coisa: quem é visceralmente antipetista não vai mudar de ideia se o candidato falar mais grosso. Quem é antibolsonarista já não precisa do discurso virulento. Na hipótese de um embate entre os dois, acho que vencerá a disputa quem assustar menos o eleitor que não está nos extremos. E, de saída, digo: isso nada tem a ver com os tais mercados. Esse eleitorado de que falo sofre os efeitos da disparada do dólar, mas não especula com dólar.

Numa campanha de falas tão duras, a vitória pode ser determinada pela fala mansa.

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