Opinião

A hora do anjo

27 de dezembro de 2018 às 09h49 Por Heron Cid
Capela de Santo Antônio, antes de virar Paróquia, ser reformada e perder sua arquitetura original

Marizópolis (PB) – Adolescente, navegava na imaginação pelas ondas do rádio e se transportava para mundos distantes cada vez que sintonizava uma frequência desconhecida nas madrugadas.

Por essas horas, a propagação é mais forte e o AM atravessa estados e até continentes. Mas até aí, era algo muito particular. A timidez preservava aquelas divagações para poucos, para não dizer ninguém.

E, então, por que e como o neto da vizinha, do nada, numa de suas visitas a avó, parou, sem motivo aparente, na calçada e atirou à queima roupa uma pergunta direta?

– Quer apresentar “A Hora do Anjo” na próxima semana? A moça que faz comigo vai precisar viajar…

“A Hora do Anjo” era um programete de meia hora, no máximo, veiculado todos os dias no serviço de alto falantes da então Paróquia de Santo Antônio, a Igreja Católica, bem na frente da minha casa, na Rua Ana Rocha, número 18.

Por aquelas cornetas eu decorei as músicas do Padre Zezinho e dos Cantores de Deus. Acordava às cinco da manhã com as canções tocando quase dentro do quarto e findava o dia entre o pôr do sol e as belas melodias dos vinis propagadas pela pequena difusora instalada por trás do altar.

Meio sem jeito, intimidado a dizer não e o coração pedindo sim, aceitei o inusitado convite. Depois, não dormi direito os próximos dias, ansioso para o grande dia. Como seria? Eu conseguiria abrir a boca? Leria direito? Quem estaria lá na hora? Por quem eu seria visto? O que poderia fazer de diferente das outras duplas que semanalmente se revezavam na responsabilidade de levar o programa ao ar?

Para isso, a pequena máquina de datilografia foi uma aliada. Em casa, comecei a montar um roteiro (mesmo sem ter noção do que era um script), redigir a abertura e os quadros. Pois é, em vez de apenas um ritual de leituras de oração, eu pensava que era possível inserir notícias, curiosidades e as datas comemorativas.

E assim fiz, certo de que contaria com a benevolência e compreensão do autor do convite. Ele era o titular do horário e candidato a seminarista, portanto, enfronhado na Igreja. Bem diferente de mim, literalmente um mero ouvinte das missas, atividades e programas, apesar de morar no “quintal” da capela que mais tarde viria ser elevada à paróquia. E não é que contei.

Com muito sacrifício, quase pânico, consegui ler e superar a primeira etapa do medo. O bicho ‘microfone’ começava a ser domado. “A Hora do Anjo” nesses dias ficou parecendo os programas de rádio de Sousa, com timbre de locutor e direito até a manchetes. Uma distorção total do estilo comedido e religioso concebido pelas freiras. E não fui censurado. Talvez por misericórdia. Pelo menos pra mim, deu certo.

E não só. Passando pela rua, fui abordado por Zezão, um dos vizinhos. Sentado na calçada, ele perguntou se eu era um dos “locutores” daquela semana. Entre empolgado e temeroso, consenti. Ouvi um efusivo elogio. Pronto, era a consagração pública e o reconhecimento da audiência. Eu já estava famoso e me achando. Exagero. Era só um bom vizinho certamente pensando que o filho de José Maria Madrid, já falecido e ausente há tempos daquela cidade, até que poderia seguir a profissão do pai, radialista. Mas que foi um grande estímulo foi.

Dalí em diante, vieram outras pequenas experiências até a formação de uma convicção que de intuitiva, antes, passou a ser uma obstinação e um destino profissional. Eu seguiria em frente fazendo isso pelo resto dos meus dias.

Onde estiver, Augusto Petrônio, o rapaz do convite, muito provavelmente não lembra mais dessa história e nem muito menos saiba que é muito ‘culpado’ de ter, despretensiosamente, ajudado a botar um jornalista no mundo. E logo nascido na Marizópolis de décadas atrás.

Hoje, mais de 20 anos depois, vejo serena e comovidamente que nunca escolhi a comunicação. Ela quem me chamou. E pela boca de um anjo.

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