Bastidores

Ideologia, quem? Por Sérgio Rodrigues

6 de dezembro de 2018 às 18h00

Agora que “ideologia” voltou a ser uma palavra tão importante, associada a tantos adjetivos mimosos (petista, gayzista, globalista, comunista etc.), convém nos entendermos sobre ela. A empreitada é mais complicada do que parece.

No livro “Ideologia: Uma Introdução” (Boitempo/Unesp), o crítico literário inglês Terry Eagleton apresenta uma lista de 15 definições, algumas incompatíveis entre si.

De “processo de produção de sentidos, signos e valores na vida social” a “ideias que ajudam a legitimar um poder político dominante”, passando por “ilusão socialmente necessária”, a ideologia arrasta uma cauda de pavão de significados.

Quando nasceu, de parto induzido, na escrivaninha do iluminista francês Destutt de Tracy (1734-1836), era “ciência que estuda as ideias”. A primeira acepção foi parar no museu, mas a palavra estava destinada ao estrelato.

Meio difusa e sujeita a retoques sem fim, tem grande importância no pensamento de Karl Marx (1818-1883) e seus seguidores. Para o autor de “A Ideologia Alemã”, era uma pátina simbólica aplicada sobre as relações materiais, econômicas, naturalizando a história e mascarando a violência.

Quer dizer, ideologia era a mentalidade imposta pela burguesia para vender o capitalismo como “a vida é assim mesmo”. Curiosamente, a palavra começou a marcar o século 20 associada às ideias marxistas. Logo explicava também o fascismo, a democracia liberal, os hippies etc.

Ideologia virou qualquer kit de concepções políticas, morais, religiosas e estéticas que paute um indivíduo ou um grupo. Aí temos um problema: se ideologia é tudo isso, o próprio solo do pensar e do sentir, haverá algo que ela não seja?

Por exemplo, que sentido faz aquela declaração de Paulo Guedes à repórter Malu Gaspar, da piauí? “Olha o custo, olha como a ideologia é cara. É burrice ter ideologia.” Devemos entender que os bebedouros da escola de Chicago dão imunidade contra algo tão universal nas sociedades humanas?

O que se lê na frase do superministro e de outros bolsonaristas, os maiores patrocinadores da recondução da ideologia ao centro do debate político, vai além da suposição ingênua de que ideologia é como sotaque, só eu não tenho.

Guedes recorre ao sentido dominante da palavra neste século que o 11 de setembro re-ideologizou na marra: conjunto de condicionamentos e dogmas que distorce a percepção da realidade e nos faz tomar decisões contrárias aos nossos interesses.

Como, digamos, enterrar um trilhão de dólares em republiquetas de esquerda, um dos crimes do PT inventados (como se faltassem crimes reais) pelo imaginoso ideólogo Olavo de Carvalho.

Agir ideologicamente seria então contrariar o bom senso em nome de ideias preconcebidas. Eagleton atribui a paternidade dessa acepção ao sociólogo Émile Durkheim (1858-1917) e observa: “O oposto de ideologia seria, aqui, menos a ‘verdade absoluta’ do que o ‘empírico’ e o ‘pragmático’.”

Então vamos ver. Haverá uma molécula de pragmatismo naquelas decisões –ou planos, acenos, difícil nomear– tão caras ao governo eleito, da transferência da embaixada para Jerusalém à eleição da questão ideológica como problema central de uma educação em frangalhos?

A resposta, cristalina, é não. Segundo seu próprio critério, aqueles que mais têm alertado no Brasil para o atraso de vida representado pela rigidez ideológica estão atolados em ideologia até o pescoço. Surpreso, alguém?

Folha
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