Bastidores

Sua tia não é fascista nem está sendo manipulada. Por Cora Rónai

18 de outubro de 2018 às 11h30

Apesar de eu ser ateia, Deus é bom e gosta de mim: no sábado pego um avião, vou para Atlanta, de lá para São Francisco e de lá para Seul, na Coreia do Sul. É muito chão, muito céu, muito espaço. Vou a trabalho, com uma agenda milimetricamente calculada, com diversas visitas a laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia. Vou mergulhar num mundo de conhecimento e de respeito intelectual, muito distante destas eleições apocalípticas. É possível que, em algum momento, até me esqueça que o Brasil existe — e que, aqui, pessoas que até ontem eram amigas e se amavam andam com tanto ódio umas das outras.

É como se, subitamente, houvéssemos nos tornado todos horríveis uns para os outros, insuportáveis, pessoas nefastas e inconsequentes; em vez de sermos todos brasileiros, náufragos num mesmo barco à deriva.

Se nada fora do comum acontecer, Bolsonaro já está eleito. Uma péssima surpresa espera por seus eleitores, que tanta fé põem numa ruptura com o sistema: para além das declarações incompatíveis com o cargo, o deputado não tem nem projetos nem competência e, o que é pior, sequer tem conexões que garantam um mínimo de eficiência ao seu governo.

Quem espera o pior não vai se desapontar. “Quanto pior, melhor” é um jogo de palavras bobo que encobre a sinistra verdade de que nada é tão ruim que não possa piorar. Quanto pior, pior mesmo.

A esta altura, deveríamos estar pensando juntos em como lidar com o futuro. Deveríamos estar cobrando propostas reais, exigindo respostas concretas e nos fortalecendo como sociedade civil, em vez de trocar mensagens insultuosas pelas redes sociais e nos distanciarmos cada vez mais uns dos outros.

A vida pode ser péssima sob um péssimo governo, mas fica infinitamente mais desgraçada quando abrimos mão das redes de segurança e de afeto que nos oferecem os parentes e amigos. No entanto, é para isso que nos encaminhamos — um tempo de desgoverno agravado pelo ódio que plantamos entre nós mesmos, incentivados por políticos canalhas que, amanhã, vão conviver faceiros pelos corredores ricamente atapetados dos palácios de governo, como se nada houvesse acontecido.

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“As pessoas estão sendo manipuladas” é o novo “O povo não sabe votar”. As duas frases pressupõem uma casta de iluminados à prova de políticos populistas, e são igualmente arrogantes e elitistas. Elas embutem uma carga imensa de discriminação contra gente pobre e sem instrução, como se apenas estudantes de ciências sociais e pós-graduados em marketing estivessem aptos a entender as verdades ocultas da política.

O meme “A sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”, que tem circulado pela internet em todas as formas, e que é oferecido como uma espécie de salvo-conduto condescendente a parentes bolsonaristas, agrega ainda uma dose asquerosa de ageismo, aquele preconceito contra idosos que todos nós, que já passamos de uma certa idade, enfrentamos diariamente.

A sua tia não é fascista nem está sendo manipulada. Ela apenas fez uma opção diferente da sua. A isso se chama democracia.

O Globo

Vídeo

Vídeo-entrevista: Líder da Oposição crê em “diálogo mais fácil” com João


Quando é pra dar errado..

Dona Candinha descobriu qual é a Lei mais lida pela oposição da Paraíba nos últimos dias:

"Lei de Murphy!"

PONTO DE INTERROGAÇÃO
No acordo da base girassol, quem cederá? Adriano Galdino ou Buba Germano?
NÚMERO

R$ 500 mil

Valor liberado pelo Ministério da Justiça para a Defensoria Pública da Paraíba para interiorização aos atendimentos.