Bastidores

Os desafios das mudanças. Por Luiz Felipe Pondé

8 de outubro de 2018 às 15h38
Luiz Felipe Pondé, doutor em Filosofia pela USP

O tema de que o mundo está mudando encanta o setor corporativo da sociedade, assim como outros setores, como a educação. A ideia de que essas mudanças são um desafio e todos devem se preparar para elas é um clichê para quem conhece um pouco o mundo corporativo no seu viés de comunicação e marketing. O tema é pungente e merece atenção.

Mas suspeito que o que significa aqui “mudança” mereça uma atenção mais detalhada. Normalmente, “mudança” é usada para impressoras 3D, entrada de algoritmos no mercado de trabalho e, portanto, mais tempo livre para lazer, família e afins. E tudo isso adquire um tom meio cor-de-rosa, lindo e otimista.

Como nos ensinou o grande filósofo Hegel (1770-1831), o pensamento mais atento deve sempre cuidar para não se esquecer do negativo no mundo. Em síntese, a tarefa do filósofo é olhar ali onde o mundo está dando errado. Claro que esse “negativo” se refere ao momento negativo da dialética, mas deixemos isso para outro dia.

Proponho cinco tópicos sobre mudança seguindo a diretriz hegeliana negativa.

O primeiro seria a necessidade de abandonarmos o paradigma motivacional na comunicação corporativa (na educação também, mas deixemos isso para outro momento).

A necessidade de motivar as pessoas o tempo todo nasce da própria estrutura produtiva burguesa: acreditar na mudança significaria melhor produtividade, mais otimismo, menos tristeza, mais riqueza.

O capitalismo precisa de pessoas felizes e que creem nos avanços. O problema é que apenas os doentes conseguem ser felizes “o tempo todo”.

O problema é que o paradigma motivacional implica debilidade cognitiva, intelectual e afetiva, quando usado em demasia, como é o caso em questão.

Seres humanos podem não saber o tempo todo o que é fake news ou verdade, mas, quando mentimos demais para eles, eles chegam a um momento em que são obrigados ou a entrar em crise (justamente o que o paradigma motivacional teme e reprime com todas as forças) ou a aceitarem que optaram pelo retardo mental (o que em si, nalgum momento posterior, poderá gerar alguma forma de crise).

Os seguintes tópicos devem ser vistos à luz deste primeiro como fundamento.

Um segundo tópico é a imposição da felicidade o tempo todo, o que, por sua vez, implica um aumento de medicamentação. A mentira indiscriminada como paradigma é, seguramente, patogênica. A solução é se dopar em alguma medida.

O contrário aqui não é a “felicidade da verdade”, mas o vínculo delicado entre verdade e saúde mental, de alguma forma. Seja nos jovens e no seu aumento de uso de ansiolíticos, seja nos mais velhos e na sua depressão. A destruição da libido parece ser uma escolha política para garantir um mundo mais seguro e correto.

Aliás, um terceiro tópico de mudança que nos desafia é a crescente diminuição da atividade sexual entre os mais jovens. A escolha pelo combate à ansiedade implica uma diminuição da própria libido, uma vez que ansiedade e libido são irmãs. Trocando em miúdos: se você não quiser ser brocha, terá que ser um pouco infeliz.

Um quarto tópico, decorrente dos anteriores, é o caráter redentor do uso de um pouco de verdade na comunicação com as pessoas. Dizem a elas, por exemplo, que os algoritmos as conhecem melhor do que elas mesmas e que, como gosta de falar o historiador israelense Yuval Harari, de forma um pouco dramática, logo seremos hackeados por esses mesmos algoritmos, que nos dirão o que queremos e o que pensamos, por meio das mídias sociais crescentes.

Esse discurso pode ser mais importante do que ficar repetindo milhares de vezes que as mídias sociais têm um caráter democrático e revolucionário e que o avanço da inteligência artificial criará um mundo de renda mínima para as pessoas ou que elas criarão obras como as de Shakespeare a cada manhã.

Sem trabalho não há dignidade, e adultos que se acostumam a viver “de graça” sempre têm problema de caráter. O hackeamento a que se refere Harari nasceria do uso de algoritmos mapeando nossos perfis de consumo e de postagens.

Um quinto tópico é o crescimento inexorável da solidão no mundo. O tédio será um dos afetos essenciais num “mundo Netflix  + iFood” como paradigma cotidiano. As pessoas viverão mais e terão menos família a sua volta. As pessoas estarão ocupadas sendo felizes e não cuidando de idosos. Empresas oferecerão serviços nos lugar dos “afetos antigos”. E a solidão será um problema de saúde pública, fruto da ampliação da saúde em larga escala.

*Luiz Felipe Pondé – Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.
Folha
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