Bastidores

Estrela da Lava Jato já organiza discurso para governo Haddad ou Bolsonaro. Por Reinaldo Azevedo

4 de outubro de 2018 às 09h55

Deltan Dallagnol, o procurador-estrela e coordenador da Lava Jato, anda mais assanhado do que lambari na sanga, como dizem os gaúchos. Encoste um gravador no rapaz, e ele desanda a falar. Desta feita, concede uma longa entrevista à Folha. Longa e curiosa, diga-se.

Está claro que Jair Bolsonaro (PSL) é o candidato da Lava Jato, ainda que essa possa ser uma consequência não buscada. Ocorre que valentes como Dallagnol forneceram as causas. O resto foi fácil. O candidato se encaixa no perfil, o que, vocês verão, o procurador admite, ainda que por linhas oblíquas. Mas Bolsonaro também é quem é. O público fanaticamente lava-jatista também é, com raras exceções, fanaticamente bolsonarista. Entre um procurador obrigado a certos decoros e um líder que ascendeu com a fama de que dá um murro na mesa e resolve, adivinhem com quem ficarão os valentes…

A entrevista do procurador chega a ser engraçada porque ele já está se preparando para os dois cenários. Se Bolsonaro ganhar, ele quer desvincular o MPF dos eventuais métodos do mandatário. Se o vitorioso for Haddad — e nem nos piores pesadelos o lava-jatismo imaginou o PT no segundo turno —, o animador de auditório do PowerPoint deixa claro que não foi nada pessoal.

O rapaz que até anteontem recorria ao Twitter e ao Facebook para demonizar votos de ministros do Supremo em julgamentos em curso; que pedia em cena aberta a prisão de pessoas que nem denunciadas haviam sido — Pode? Pode. Desde que haja motivos —; que tratava o sistema político como um antro de corruptos; que sugeriu mais de uma vez que ou se renovava toda a classe política ou não haveria salvação; que incitou manifestações da população contra o Congresso… Bem, essa mistura de Savonarola com Torquemada, de vocação mística com o braço armado da polícia, agora procura fazer uma espécie de “hedge”, de proteção, buscando o seu lugar no país que virá.

A quatro dias da eleição, dá a seguinte resposta quando indagado se a Lava Jato pode fazer com que o brasileiro vote melhor:
“A Lava Jato pode incentivar, sim, os brasileiros a buscar candidatos mais íntegros. Mas também pode ter o efeito contrário. De pintar a classe política inteira como corrupta  — e, quando todos são corruptos, a integridade deixa de ser um critério de escolha. O importante é percebermos que cada brasileiro pode buscar pessoas mais íntegras.

Se eu tivesse nascido ontem, poderia exclamar: “Aleluia!” Mas agora é tarde, não? Bem antes de Dallagnol, no dia 17 de fevereiro do ano passado, afirmei em coluna na Folha: “Se todos são iguais, Lula é melhor”. E, nas palavras do próprio procurador, a operação “pintou a classe política inteira como corrupta”. E os efeitos são os que vemos. Se as pesquisas estiverem certas, podemos ter um segundo turno entre um candidato do PT — e Lula só não é o futuro presidente da República porque tirado do jogo pelo Poder Judiciário, não pelo povo — e Jair Bolsonaro, cujas credenciais democráticas, até agora, se limitam aos sete mandatos exercidos na Câmara. Só não se pode falar que foi discreto porque sempre foi bastante estridente. Nas demais declarações, não se nota especial apreço pela democracia.

E eis que Dallagnol se vê, no caso da eleição do petista, diante do malogro do projeto político da Lava-Jato — não me refiro às investigações fundamentadas — ou, no caso da eleição do capitão reformado, diante da expressão ainda mais virulenta operação, mas sem as âncoras que fixam, na forma ao menos, o Ministério Público Federal como parte da ordem democrática.

Na entrevista à Folha, talvez Dallagnol esteja antevendo a vitória de Jair Bolsonaro, o que não é certo ainda, note-se, segundo as pesquisas. Atenção para esta pergunta e para esta resposta:
Em nota recente, a força-tarefa declarou que o objetivo da Lava Jato “não é minar o sistema político do país”. Por que, então, muitos eleitores e até candidatos falam em quebrar o sistema? Essa não foi uma consequência indesejada das investigações?

Se quebrar o sistema for interpretado como quebrar o ciclo vicioso de corrupção, essas manifestações são positivas. Por outro lado, se quebrar o sistema significa quebrar o sistema democrático, republicano, estabelecido pela Constituição, isso seria absurdo, um imenso retrocesso.

Pois é, Dallagnol. Como bem sintetizou a filosofa Dilma Schopenhauer em conversa com Barack Obama, segundo o seu próprio testemunho, a dificuldade sempre é fazer a pasta de dente voltar para o tubo — reproduzo o que ela tentou dizer…

Fala-se abertamente, sim, em quebrar garantias do sistema democrático — como, aliás, pratica a Lava Jato. Ou usar prisões preventivas sem prazo, ao arrepio do Código de Processo Penal, como antecipação de pena e tentativa de forçar delações não é já uma quebra das garantias democráticas? Ou a indústria de vazamentos de delações que ainda nem foram objeto de investigação não implicam o desrespeito às garantias democráticas?

A verdade inescapável é que Deltan Dallagnol percebeu o quadro de radicalização a que foi conduzida a sociedade brasileira e burro não é. Setores do MPF imaginaram que poderiam ser, vamos dizer assim, o “establishment” de Bolsonaro, se este for eleito. Já está claro que não seria assim. As denúncias da Lava Jato ajudaram a destruir seus adversários, mas sua metafísica passa longe do poder das togas. No caso de vitória do PT, isso soará em muitos nichos como uma espécie de julgamento da Lava Jato — aquela que, com frequência, têm promovido verdadeiros julgamentos extrajudiciais.

E o doutor tenta, então, evidenciar a isenção da Lava Jato, que levou, não por seus acertos, mas por seus erros, o país à beira do abismo. E até critica os políticos que falam em defesa da operação:
“O enfrentamento à corrupção promovido pela Lava Jato jamais foi moralista. A Lava Jato tem atuação técnica, imparcial e apartidária em processos judiciais. Em uma segunda dimensão, buscou uma mudança das condições que favorecem a corrupção no Brasil. E nem nessa dimensão foi moralista, porque atuou sobre políticas públicas. A luta contra a corrupção tem um aspecto moral. Agora, esse não é o enfoque do trabalho dos procuradores da Lava Jato, que tem uma dimensão técnica e de política pública. O que é ilegítimo é usar isso como um instrumento, de modo hipócrita, num discurso que não se confirma por atitudes e comportamentos, para alcançar interesses próprios.”

Pois é, Menino Maluquinho! Agora Inês é morta! Ou vence o PT, e vocês perdem. Ou vence Bolsonaro, e vocês são coniventes, mas fora do poder.

Não adianta se esquivar.

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