Bastidores

‘Ele não’ está no mapa! Por Zeca Camargo

4 de outubro de 2018 às 10h14
Arte: Maíra Mendes

O sonho de todo viajante é conhecer todos os países do mundo, certo? Sim e não. Com 112 “carimbos no passaporte” acho que estou pronto para fazer uma confissão: tem país no meu mapa que eu peguei um lápis e escrevi “ele não”. Você também é assim? Vejamos se você pensa como eu na hora de escolher para onde ir.

Nesses quase cinco anos de textos em Turismo já devo ter mencionado em algum momento que tenho questões com governantes que negam os mais básicos princípios de liberdade aos seus cidadãos. E, de fato, salvo uma ou outra viagem profissional, não tenho, no histórico dos meus itinerários, visitas a povos que vivem sob um regime que joga contra a população que deveria proteger.

Um conceito, admito, elástico. Você pode me questionar, por exemplo, por que então já fui à Venezuela —eu respondo que isso foi anos antes de Nicolás Maduro arrematar (com louvor) a decadência da herança de Hugo Chávez. Leitores atentos hão de lembrar que já os deslumbrei aqui com as belezas de Mianmar —mas esperei até o país ter um mínimo de democracia para conhecer as maravilhas de Bagan.

Esse meu compromisso inevitavelmente muda com o tempo. Prova disso: Cuba, um destino por décadas bastante opressor, parece cada vez mais convidativo. E não descarto conhecer um dia a lista de países que ao mesmo tempo guardam o encantamento de culturas de fato milenares e perpetram regimes que aprisionam quem vive neles —e até sufocam essa tradição (ironicamente, muitas vezes em nome dela).

China? Fui a trabalho. Idem Egito. Nunca tive uma oportunidade profissional de explorar a Rússia, mas, embora a Transiberiana seja um dos meus sonhos, não sei se me sentiria à vontade fazendo reportagens por lá. Não é simples conversar com pessoas que cresceram com receio de expressar suas opiniões —muito menos entrevistá-las.

Há ainda obstáculos pontuais: a misoginia na Arábia Saudita; a homofobia na Jamaica; o fundamentalismo do Paquistão.

Mas esses são fatores transitórios num mundo que, otimista que sou, sempre acho que está em mudança —e para melhor.

O que faz mesmo que eu evite algum lugar é saber que lá impera um preconceito maior, mais abrangente, que, admito, não é uma novidade desde que inventamos algo chamado “civilização”: o medo do diferente.

Um dos prazeres de viajar é justamente sair do seu referencial, ver como seres de outros cantos respondem a questões como a vida em família, a rotina do trabalho, a vontade de aprender, a comida que preparamos —e até como trocamos carícias.

Essa curiosidade é o principal ingrediente da nossa “receita de gente” e a ausência dela não só nos tira desse patamar como também torna qualquer viagem menos interessante.

E tudo piora quando o combate à diferença é disputado não com ideias —sempre bem-vindas— mas com truculência e ignorância. Negar que aprendemos com “o outro” é não lembrar que somos todos “viajantes de nascença”.

É esquecer que os árabes um dia chegaram a Moçambique; os portugueses a Goa. Que polinésios já dominaram a Ilha de Páscoa e que a Turquia tem sua mais bela cidade em dois continentes. Que africanos descendentes de ex-escravos no Brasil reconstruíram sua identidade em Benin. Que a duquesa de Sussex, recém-casada com o príncipe Harry, tem uma mãe afro-americana. E que somos o que somos porque nos misturamos.

Trocamos imperfeições mútuas por aprimoramentos conjuntos. Aumentamos nosso conhecimento aceitando nossos limites. E acreditamos que os únicos valores que valem a pena ser defendidos não estão ligados a nenhuma religião, ideologia, nenhum gênero, mas a uma espécie da qual —quase sempre— nos orgulhamos de pertencer: a dos humanos.

Pensando nisso, devolvo minha reflexão para você. Pegue o mapa-múndi e um lápis (que você sempre pode apagar!), olhe bem e diga em quantos países escreveria “ele não”. Algum que você às vezes ainda gosta de chamar de mãe gentil? Você tem até domingo para responder.

Folha

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