Bastidores

A nova mulher que foi às ruas. Por Míriam Leitão

2 de outubro de 2018 às 09h30

O movimento das mulheres conseguiu algo que os partidos de centro e de esquerda não alcançaram: levar para as ruas, com uma mesma ideia, eleitores de diversos candidatos que se opõem a Jair Bolsonaro. Era a união de centro-esquerda, que tanto defendem alguns políticos, em defesa de conquistas como democracia, liberdade, respeito às mulheres, combate ao racismo e à homofobia. Essa foi a ideia que predominou e é por isso que as cores presentes eram muitas, inclusive o vermelho do PT.

As passeatas do fim de semana não foram equivalentes. Uma é mais forte do que a outra, e não me refiro apenas ao número de pessoas. Não é quantitativa apenas a diferença, é qualitativa. As manifestações das mulheres se projetam para além das eleições e começaram antes da atual disputa. Representam a emergência de um fenômeno novo que é o protagonismo das mulheres, a causa feminista. As passeatas a favor de Jair Bolsonararo foram reativas, uma reação ao que houve no sábado. Representam o que sempre acontece em eleições, em que os candidatos que mais mobilizam eleitores conseguem fazer demonstrações disso. As fotos de uma e de outra manifestação já revelam a diferença. Em uma, há a predominância de mulheres, muita diversidade e nenhum partido específico no comando. Nas de Bolsonaro, a maioria era de homens, em geral brancos, e que a pé ou de carro gritavam os slogans em favor do seu candidato.

O #EleNão é um movimento. A passeata pró-Bolsonaro é o que pode ocorrer em qualquer eleição, quando os seguidores de um candidato vão demonstrar seu entusiasmo. O movimento das mulheres antecede a Jair Bolsonaro e é um fenômeno social que se espalha pelo mundo, tem parentesco com o #metoo e tudo o que representa o renascimento do feminismo em novas bases. As mulheres passaram por cima de ideologias para colocar as suas questões como parte central do debate. As mulheres negras fazem um outro ponto: a exclusão delas é ainda maior, porque é fruto da sobreposição de desigualdades. No século passado, os partidos de esquerda deixavam a causa feminista em segundo plano. Agora, as mulheres não permitirão que isso aconteça.

Uma das músicas cantadas pelas mulheres na passeata mostra em seus versos o chamamento para a caminhada coletiva. “Companheira, me ajude, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor.” Ou outra que diz que “uma manhã eu acordei e lutei contra um opressor”. O que essas melodias, surgidas na esteira do antibolsonarismo, querem dizer vai além da conjuntura. Falam da necessidade de união de mulheres em torno de sonhos comuns há muito adiados e de luta contra vários tipos de opressão.

A questão da vez, emergencial, é um candidato que já demonstrou inúmeras vezes o seu desprezo pelas mulheres. As frases foram tantas e tão ofensivas, foram tão reiteradas, que não é preciso repeti-las. Mas, qualquer que seja o resultado desta eleição, as mulheres que estiveram na Candelária, no Largo da Batata, na Praça Sete, e inúmeras outras cidades brasileiras, carregarão o impacto dessa nova atitude. O movimento nasceu por acaso, de uma página feita por uma mulher que ainda nem sabe se vai votar. A adesão imediata de milhares e até milhões de mulheres veio da força da ideia no momento certo.

Quem não entender a importância da mulher no século XXI não tem a menor chance de governar bem país algum do mundo. Na semana passada, uma delegação japonesa se espantou ao ver um homem trocando a fralda de um bebê no prédio das Nações Unidas. Era o marido da primeira-ministra da Nova Zelândia, que tirou licença para se dedicar inteiramente ao bebê, enquanto a mulher governa o país.

As multidões eleitorais são difusas e se dispersam rapidamente. Não há uma liga específica. O eleitorado de Collor de Mello, que o levou ao poder em 1990, virou fumaça quando seu governo entrou em crise. Ele convocou para as ruas os seus apoiadores e sugeriu que eles vestissem verde e amarelo. O país foi de preto pedindo a sua queda.

Havia muitas divisões entre as mulheres que andavam juntas no sábado, 29. Elas se separarão nas urnas entre candidatos diferentes. Mas há uma liga entre elas, um ponto em comum, para além dos partidos. E esse sentimento do novo, da mulher atual, permanecerá conosco para além das eleições, qualquer que seja o resultado.

O Globo

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