Bastidores

Debate inaugural não produzirá virada de votos. Por Josias de Souza

10 de agosto de 2018 às 10h05

Nenhum dos quatro principais presidenciáveis —Bolsonaro, Marina, Ciro e Alckmin— protagonizou nada parecido com um tropeço no primeiro debate presidencial de 2018. Por isso, é improvável que o evento resulte numa virada de votos. Serviu apenas para consolidar posições. O canibalismo esteve no limite do aceitável. Os contendores se deram conta de que, a essa altura, a plateia quer mais soluções do que sangue.

O debate (íntegra disponível aqui) escancarou uma peculiaridade da atual campanha: todos desejam encarnar a mudança. A temática foi ditada pela rua, de baixo para cima. Incluiu uma agenda tão óbvia quanto urgente —do desemprego à roubalheira, passando pela ruína fiscal e a precariedade dos serviços públicos.

A má notícia é que os oito debatedores inundaram o estúdio da TV Bandeirantes com ideias que não deram água para alcançar a canela —em parte por conta do engessamento das regras, em parte pela aridez das propostas. Seja como for, a esperança que os candidatos foram capazes de inspirar nas três horas e doze minutos em que estiveram no ar cabe numa caixa de fósforos.

A noite produziu duas vítimas: Michel Temer e Lula, ambos ausentes. O primeiro apanhou indefeso. O segundo foi ignorado. Temer não contou nem com a solidariedade do seu ex-ministro Henrique Meirelles. O presidenciável cenográfico do PT teve um consolo.

O condenado mais ilustre da Lava Jato assistiu pelo televisor instalado em sua cela especial à saudação do companheiro Boulos, do PSOL: “Boa noite, presidente Lula. Deveria estar aqui. Mas está preso injustamente em Curitiba, enquanto o Temer está solto lá em Brasília”.

Bolsonaro apresentou-se em versão ligth. Não explodiu nem mesmo quando Boulos, no comecinho do debate, dirigiu-lhe uma pergunta dura de roer, com prefácio desairoso: “O Brasil todo sabe que você é racista, machista, homofóbico”, disse o rival do PSOL.

Boulos prosseguiu: “Você, em 27 anos como deputado, ficou dez anos no partido do Paulo Maluf, recebeu auxílio moradia tendo casa, comprou cinco imóveis, fez da política um negócio em família, tem um monte de filhos no mesmo esquema que você.” Sapecou: “Quem é a Wal, Bolsonaro?”

E o capitão, contendo-se dentro dos sapatos: “Eu pensei que viesse discutir política nacional aqui.” Bolsonaro negou que Walderice, a Wal, seja funcionária fantasma em Angra dos Reis. Estava em férias quando a reportagem da Folha a procurou, disse. “No tocante a patrimônio, o Ministério Público já revirou minha vida de perna para o ar.” Os filhos? “Tenho moral para indicar e o povo vota neles.”

Para não ser acusado de ter virado um ex-Bolsonaro, o capitão devolveu a provocação. Expressando-se num idioma muito parecido com o português, afirmou: “Me orgulho da minha honestidade e não dos atos de invadir propriedade privada dos outros, que trabalhou e suou muito para conseguir aquele patrimônio. E vai uns desocupados invadir e levar terror na cidade.”

Líder do movimento dos sem teto, Boulos não se deu por achado: “A Wal é funcionária fantasma do gabinete dele. Junto com o marido dela, Edenilson, tem a responsabilidade de cuidar dos cachorros do Bolsonaro numa das casas dele em Angra dos Reis. O problema não é a Wal. Ela é vítima de políticos como o Bolsonaro, que vendem essa ideia de que vão acabar com a bandalheira e é (sic) farinha do mesmo saco. Bolsonaro representa a velha política corrupta… Recebeu auxílio moradia tendo casa. Você não tem vergonha?”

Sem elevar o timbre de voz, Bolsonaro encurtou a conversa: “Teria vergonha se estivesse invadindo casa dos outros. Auxílio moradia está previsto em lei. Se é imoral, é outra história. Não vim aqui para bater boca com um cidadão desqualificado como esse aí”, encerrou, devolvendo a palavra ao mediador do debate antes do encerramento do tempo a que tinha direito para a tréplica.

Depois desse teste de nervos, Bolsonaro fez o que se esperava dele: pregou para convertidos. Em meio a respostas superficiais, encaixou a retórica que lhe rende votos. Coisas como a liberação das armas, restrição aos direitos humanos de bandidos, castração química de estupradores e disseminação de escolas militares pelo país… Tudo isso, mais o fim do fisiologismo. “O único que tem moral para cumprir essa missão é Jair Bolsonaro”, declarou.

Marina e Ciro, segunda e terceiro colocado nas pesquisas sem Lula, poderiam ter duelado entre si. Mas preferiram alvejar Alckmin, o quarto colocado. Em certos momentos, ficou a impressão de que a dupla receia que o rival tucano decole quando puder ocupar o latifúndio que obteve no horário eleitoral.

Num embate direto com Alckmin sobre educação, Marina sugeriu ao telespectador que levasse o pé atrás ao ouvir do tucano a promessa de que dará prioridade ao ensino fundamental. “Tome muito cuidado, porque às vezes se faz um discurso oco da prioridade à educação, mas o condomínio já está cheio de Lobo Mau querendo comer o dinheiro da vovozinha”. O lobo da metáfora de Marina é o centrão, grupo partidário que encostou seu histórico de corrupção na candidatura de Alckmin. A vovozinha é o Tesouro Nacional.

Noutro ponto do debate, a candidata da Rede ironizou a promessa de Alckmin de governar com os melhores quadros dos partidos políticos e da sociedade. “Costumo dizer que a forma como se ganha determina a forma como se governa”, declarou Marina. “E fica muito difícil acreditar que quem se junta com aqueles que estão em graves casos de corrupção possa de fato ter critérios que sejam levados a sério na hora da composição do governo. Nós teremos critério. […] Quando se ganha com quem não tem compromisso com a ética, contamina o governo e todas as promessas caem no vazio.”

Alckmin viu-se compelido a adicionar à réplica uma pimenta que não orna com seu apelido de ”picolé de chuchu”. Apontou para o passado petista de Marina: “Nunca fui do PT nem ministro do PT. Quero deixar bem claro que somos de uma outra linhagem.” Alckmin também realçou que Marina aliou-se ao PV na campanha atual, esquecendo-se de que abandonara a legenda em 2010 sob a alegação de que não era compatível com seus valores.

Ciro alvejou Alckmin numa “nota de rodapé” sobre reforma tributária. O candidato tucano dissera que seu plano de reformulação do sistema tributário incluirá a tributação dos dividendos das empresas. E Ciro: “Fui ministro da Fazenda, ajudei no Plano Real, sob a liderança de Itamar Franco. O presidente Itamar cobrava 35% de alíquota dos ricos no Imposto de Renda e eu tributava lucros e dividendos. Foi só o PSDB assumir [no governo FHC], revogou tudo isso. Só para a gente ter clareza da história do Brasil. Não é nada pessoal. Quero preservar a antiga amizade que tenho com o governador Geraldo Alckmin.”

No primeiro bloco, Boulos enxergara nos candidatos postados no palco montado pela Band “50 tons de Temer.” No bloco seguinte, Ciro cuidou de grudar Alckmin e o tucanato no presidente radioativo. Lembrou que o PSDB, comandado por Alckmin, votou a favor da reforma trabalhista de Temer. Indagou: “Se for eleito, pretende manter?”

Alckmin classificou a reforma na CLT como “um avanço.” E Ciro: “Essa reforma trabalhista que o PSDB aprovou, proposta pelo Michel Temer, introduziu no mundo do trabalho brasileiro muita insegurança e medo do futuro. Essa selvageria nunca fez país nenhum prosperar. […] É um erro grave, vou ter que corrigir isso.” Alckmin não arredou o pé: “Mantenho a posição. A reforma trabalhista foi necessária.”

No pelotão que frequenta o rodapé das pesquisas, Álvaro Dias agarrou-se ao seu slogan da “refundação da República”, prometeu “institucionalizar” a Lava Jato e reiterou o compromisso de nomear Sergio Moro para o cargo de ministro da Justiça. Absteve-se de esclarecer se já combinou com o juiz do petrolão. Ainda assim, seu desempenho foi menos sofrível que o de Meirelles.

O ex-ministro da Fazenda atravessou o debate como se estivesse atormentado por uma dúvida: não sabia se priorizava a desvinculação com Temer ou a vinculação com Lula, a quem serviu como presidente do Banco Central. A certa altura, sentiu a necessidade de esclarecer que não participou do ruinoso governo de Dilma.

Num debate que pode ser definido como chocho, o Cabo Dacilo, desconhecido candidato do insignificante partido Patriota, injetou comédia no tédio. Falando sempre em nome de Deus, para glória do Senhor Jesus, o cabo atingiu o ápice do humor ao supervalorizar o hipotético esquerdismo de Ciro. “O senhor é um dos fundadores do Foro de São Paulo. Pode falar aqui, para a população brasileira, sobre o Plano Ursal [União das Repúblicas Socialistas da América Latina]. Tem algo a dizer para a nação brasileira?”

Ciro tentou desligar seu inquisidor da tomada: “Meu estimado cabo, eu tive muito prazer de conhecê-lo hoje. E pelo visto o amigo também não me conhece. Não sei o que é isso, não fui fundador do Foro de São Paulo e acho que está respondido.”

Daciolo manteve a língua em riste: “Sabe, sim. Estamos falando aqui de um plano que se chama Nova Ordem Mundial: conexão de toda a América do Sul, tirando todas as fronteiras e fazendo uma única nação. Poucos ouviram falar disso e será pouco divulgado. Quero deixar bem claro que, no nosso governo, o comunismo não vai ter vez. A nação brasileira, no nosso governo, será a primeira economia mundial. Para honra e glória do senhor Jesus Cristo.”

Sob risos, Ciro arrematou: “A democracia é uma delícia…, mas ela tem certos custos.” Por sorte, parte da audiência não precisou arcar com todos os “custos”, pois já havia se retirado, para encontrar o travesseiro.

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