Opinião

As injustiças nossas de cada dia

9 de agosto de 2018 às 09h31 Por Heron Cid

São sete da manhã de uma quinta-feira chuvosa em João Pessoa. A porta do elevador abre. Com vista ao horizonte do terceiro andar do empresarial, uma jovem com um olhar perdido. Ao ouvir o bom dia, a reação de desânimo.

No rosto, a estampa do desalento. Roupa molhada e lágrimas nos olhos. Impossível ser indiferente a este retrato. Uma simples pergunta:

– Você está precisando de ajuda?

A resposta veio em forma de choro incontido e desabafo:

– Fui assaltada agora.

A moça de 16 anos, moradora de Cabedelo, estagia numa instituição no Centro de João Pessoa, graças ao programa Jovem Aprendiz.

Todos os dias, sai com o marido de casa para a Capital. Ele segue para o trabalho e ela para o estágio. Da parada de onde desce da moto para o trabalho leva uma caminhada.

Na de hoje, um outro jovem atravessou seu caminho. Ela logo percebeu algo estranho. O rapaz se aproximou, tentando dissipar qualquer medo com rápido e artificial diálogo e se apresentando como alguém inofensivo.

Depois, apontou para a cintura, mostrou uma faca e anunciou uma sentença:

– Vai passar o celular ou quer levar uma facada?

Trêmula, Maria (codinome) entregou o seu singelo e recém-consertado aparelho, que servia – no dizer dela – só para ligar e receber. Quase sem voz, ainda deu tempo pedir pela vida.

O assaltante pegou o produto do seu roubo e foi embora deixando a vítima para trás.

Nem ela sabe como, mas prosseguiu, sem sentir as pernas, no percurso até o prédio do seu trabalho. Antes da porta principal abrir, ela entrou na garagem. Não segurou o drama e a angústia e gritou, desalojando da garganta o nó da angústia e sensação de impotência.

– Moço, como um ser humano faz isso com outro? Eu acordo cedo para trabalhar e ele acorda para roubar. Isso não é justo! O que mais me dói não é o celular, é a atitude, é o sofrimento que ele me causa. Eu estou traumatizada.

No desabafo espontâneo a este interlocutor (o que a viu na saída do elevador), Maria confessou que não sabia como iria enfrentar o resto do seu dia. A vontade era de ir embora pra casa e chorar.

Principalmente, porque com o roubo do celular agora ela vai ter que escolher entre comprar outro usado para se comunicar com esposo e mãe ou consertar a geladeira que queimou essa semana.

A primeira funcionária da instituição empregadora chega e abre a porta para o novo dia de trabalho. Toda ensopada, da chuva e do choro, a abalada ‘menina’ se despede de mim e entra.

Falta força e controle da emoção, mas ela precisa seguir.

Ao meio dia, terá que correr, literalmente, de volta para Cabedelo. E desembarcará direto no colégio onde cursa o nono ano do ensino médio, e muitas vezes por lá mesmo almoça, quando consegue. Reside lá seu sonho de um lugar ao sol e de uma vida digna.

Maria não pode parar. Ela é do Brasil que trabalha e não perde a esperança de um futuro melhor. Mesmo quando quase tudo no seu caminho só lhe dá motivos para desistir.

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NÚMERO

65 e 62

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