Bastidores

O Brasil parece dividido, mas não está. Por Matias Spektor

12 de julho de 2018 às 10h13
Manifestantes discutem durante atos de movimentos a favor e contra o ex-presidente Lula, na zona oeste paulistana - Zanone Fraissat - 17.fev.16/Folhapress

Se há uma ideia que ganhou status de consenso é a tese da polarização: no Brasil, opinião pública e política estariam polarizadas a ponto de atrapalhar a governabilidade e a vida em sociedade, abrindo espaço para os mais variados radicalismos.

A tese é plausível porque algumas das características estruturais do país —alta desigualdade, profundas clivagens raciais etc.— têm tudo para dividir os cidadãos.

De quebra, em anos recentes, o embate feroz a respeito do impeachment de Dilma criou clivagens não apenas entre grupos opositores, mas também entre colegas de trabalho, círculos de amizade e até mesmo famílias. Quem possui conta no Facebook ou no Twitter sabe: a sociedade parece estar dividida.

Só que a polarização é mais aparente que real. Quando dados comparativos são processados à luz das principais medidas de polarização, descobre-se que os níveis de cisão no Brasil são baixos, tanto em relação a outras democracias quanto ao nosso próprio passado.

Tais dados incluem informações sobre a ideologia da população brasileira, a relação entre o eleitorado e os partidos, o comportamento dos parlamentares no Congresso Nacional e a rejeição visceral que os indivíduos têm em relação aos líderes políticos.

O resultado mostra que a polarização no Brasil é bem menor do que em países como México, África do Sul e Turquia.

Além disso, não houve um pico de polarização a partir de 2013, quando os protestos de rua inauguraram um ciclo de insatisfação popular e tensão política. Quando houve mais polarização foi em 2002, ano em que Lula venceu a eleição para suceder FHC. E, mesmo lá, a cisão manteve-se relativamente baixa.

Por quê?

O sistema político brasileiro possui uma série de mecanismos que ajudam a mitigar a polarização e cegar o fio das tentações radicais.

Por um lado, isso é bom. A mistura de presidencialismo de coalizão com partidos fracos e pulverizados, alianças não programáticas e voto proporcional em lista aberta organizam o campo político para longe dos extremos.

Por outro, no entanto, isso é péssimo. A geleia geral cria um ambiente propício à dominância dos grupos de interesses particularistas, que capturam o Estado em detrimento dos interesses do eleitor.

A política deixa de girar em torno de programas alternativos capazes de testar os partidos políticos com base na performance de suas escolhas. É Ciro Gomes (PDT) na cama com o DEM, Jair Bolsonaro (PSL) atraindo eleitores do PT.

Tal sistema sustenta o “pacto oligárquico” que, há 30 anos, retira qualidade da democracia brasileira. A sociedade brasileira não está polarizada. E uma dose de polarização não lhe faria mal.

*Matias Spektor – Professor de relações internacionais na FGV.

Folha

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