Bastidores

O papa, o terço e o sentido das fake news. Por Fernando Shuler

14 de junho de 2018 às 10h23

Nos últimos dias se discutiu se o papa havia ou não enviado um terço para Lula. O tema é perfeitamente irrelevante, o que só serve para torná-lo mais atrativo, nos tempos que correm.

terço foi entregue por um advogado e ativista argentino, Juan Grabois. Grabois é fundador do Movimento dos Trabalhadores Excluídos, na Argentina, foi consultor do extinto Conselho de Justiça e Paz, do Vaticano, e tem conhecida proximidade com o papa Francisco.

O papa Francisco tem assumido posições de proximidade com a esquerda latino-americana e com os chamados movimentos sociais da região. Esta tem sido uma marca constante de seu pontificado, e não seria nada estranho ou fora de contexto que enviasse um terço ou uma mensagem a Lula.

Se efetivamente desejasse fazer isso, é mais provável que usasse os canais diplomáticos do Vaticano, ou fizesse alguma manifestação pública a respeito. Mas eventualmente pode ter decidido agir de outra maneira.

O fato é que o ativista argentino foi até Curitiba, tentou um encontro pessoal com Lula, não conseguiu, mas deixou o terço abençoado pelo papa e um bilhete para o ex-presidente. Tudo perfeitamente previsível. Grabois tentou argumentar que se tratava de uma visita teológica, visto que ele era batizado e, como tal, possuía “funções religiosas a cumprir”.

Dada a existência de mais de 100 milhões de pessoas batizadas, no Brasil, imagino que os policiais de Curitiba acharam o argumento do advogado argentino um pouco flexível demais. Mas também podem ter errado, aí.

Quem sabe seja mesmo correto que qualquer pessoa batizada possa visitar, a qualquer hora, um preso, no Brasil. As cadeias, presume-se, teriam um bom movimento. Pode, quem sabe, haver alguma lógica nisso.

Nos dois ou três dias em que o debate perdurou, a informação flutuou como uma folha seca ao vento. A questão, em síntese, era saber se havia ou não alguma intenção do papa em enviar alguma coisa a Lula e se a visita de Grabois possuía algum caráter institucional.

Para a blogosfera militante, a resposta era positiva. Mesmo que os fatos não corroborassem, ao menos não claramente, esta versão, e nem o ativista afirmasse nada objetivo nesta direção, a coisa toda era muito sedutora. Na lógica da narrativa do “preso político”, uma bênção papal, por óbvio, valeria ouro.

Para a turma do outro lado, também não havia dúvida. Tudo não passaria de uma cena criada pelo militante argentino e ponto final. A própria agência de notícias do Vaticano parece ter entrado no jogo tedioso de nossa pequena guerra política, lançando e apagando notas com o mesmo conteúdo factual, ainda que com ênfases e tons distintos.

Foi aí que entrou no jogo a Agência Lupa, uma das organizações contratadas pelo Facebook para checar a veracidade de notícias. A agência bastou-se a dizer o óbvio. Em sua última atualização, referindo-se à nota final do Vaticano, disse apenas que “em nenhum momento o texto informa que se tratava de algo especialmente enviado pelo pontífice a Lula”.

Vai aí uma pergunta interessante: o que define propriamente um fato? A resposta, ou o método da agência parece ser a seguinte: fato é aquilo que, dadas as informações disponíveis, pode ser afirmado com razoável certeza, isento –na medida máxima possível– do terreno escorregadio da interpretação.

É interessante que é este o mesmo critério que muitos juristas simpáticos ao ex-presidente Lula, com toda a legitimidade, usam para criticar a decisão da Justiça em condená-lo. Que ele teria sido condenado com base em interpretações, não propriamente fatos. Não entro no mérito. Chama a atenção apenas o critério utilizado.

É evidente que nenhuma conclusão ou análise factual servirá para disciplinar o discurso militante. A nota do Vaticano disse simplesmente que Grabois queria levar a Lula as palavras e uma reflexão do papa, além de um terço abençoado. De fato, nada a respeito de uma eventual mensagem especificamente direcionada ao ex-presidente.

O episódio pode nos ensinar muitas coisas sobre a natureza das fake news. Uma delas é que nenhuma verificação de fatos fará cessar a sua proliferação. Por uma simples razão, como bem lembrou a jornalista Brooke Borel: porque as fake news dizem respeito a poder, não informação.

Há infinitas maneiras de driblar um fato, produzir uma narrativa, omitir detalhes, atribuir intenções ou simplesmente ajustar o sentido de uma palavra, como se fez com a expressão “mensagem”.

Outra conclusão é sobre a importância do trabalho de checagem de fatos e do bom jornalismo. As agências de checagem, desde que isentas e profissionais, não podem obrigar ninguém a agir com responsabilidade, mas podem constranger a manipulação da informação e incentivar o bom debate público.

Nesse trabalho, serão atacadas pela direita, esquerda e por qualquer posição militante. Pelo motivo óbvio de que a razão militante não tem como foco a verdade, este incerto e metafisicamente impossível, mas que devemos perseguir como um fim ético.

Recentemente, as agências de checagem de fatos foram atacadas por sites identificados à direita do espectro político; agora o foram pelo lado inverso. Isto será assim, e sua força consistirá em não ceder a lado nenhum, ainda que possam errar de vez em quando. Talvez tenham conquistado neste episódio sua maturidade.

Folha

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