Bastidores

Espremidos os dados, pesquisa acena para Ciro. Por Reinaldo Azevedo

15 de maio de 2018 às 09h45
Ciro Gomes, candidato a presidente pelo PDT

O dólar fechou ontem a R$ 3,62, o maior valor desde 7 de abril de 2016, quando caiu então, momentaneamente, a esperança de que Dilma Rousseff fosse ser deposta. A que se deve o movimento? Bem, quando os nervos estão crispados, um mosquito é um boi. Bastou a pesquisa CNT/MDA vir a público, e a reação do mercado foi de pessimismo. A Bolsa andou de lado, com uma oscilação positiva de 0,01%. E só não foi negativa em razão da alta do petróleo e do minério de ferro no mercado internacional, o que sustentou as ações da Petrobras e da Vale. E olhem que eu teria alguns reparos técnicos a fazer ao levantamento. Mas que importa? No essencial, os motivos para preocupação estão lá. E eu ousaria dizer que ele seria a tradução de uma população esquizofrênica não fosse o fato de que o país se tornou refém de uma anomalia, que é o Partido da Polícia (PAPOL) ter tomado o lugar de boa parte dos partidos da política. Por que digo isso? Vamos ver.

O prestígio eleitoral de Lula segue inabalado. No cenário em que aparece seu nome, tem 32,4% das intenções de voto, seguido por Jair Bolsonaro, do PSL (16,7%); Marina Silva, da Rede (7,6%), Ciro Gomes, do PDT (5,4%) e Geraldo Alckmin , do PSDB (4%). Sem o ex-presidente, Bolsonaro assume a liderança, mas crescendo muito pouco — entre 18,3% e 20,7% —, seguido por Marina (de 11,2% a 16,4%), que está, no entanto, tecnicamente empatada com Ciro (entre 9% e 12%). O tucano Geraldo Alckmin vem em seguida com 4% a 8,1%.

Seguem em azul os números que estão no site da CNT:
CENÁRIO 1: Lula 32,4%, Jair Bolsonaro 16,7%, Marina Silva 7,6%, Ciro Gomes 5,4%, Geraldo Alckmin 4,0%, Álvaro Dias 2,5%, Fernando Collor 0,9%, Michel Temer 0,9%, Guilherme Boulos 0,5%, Manuela D´Ávila 0,5%, João Amoêdo 0,4%, Flávio Rocha 0,4%, Henrique Meirelles 0,3%, Rodrigo Maia 0,2%, Paulo Rabello de Castro 0,1%, Branco/Nulo 18,0%, Indecisos 8,7%.

CENÁRIO 2: Jair Bolsonaro 18,3%, Marina Silva 11,2%, Ciro Gomes 9,0%, Geraldo Alckmin 5,3%, Álvaro Dias 3,0%, Fernando Haddad 2,3%, Fernando Collor 1,4%, Manuela D´Ávila 0,9%, Guilherme Boulos 0,6%, João Amoêdo 0,6%, Henrique Meirelles 0,5%, Flávio Rocha 0,4%, Rodrigo Maia 0,4%, Paulo Rabello de Castro 0,1%, Branco/Nulo 29,6%, Indecisos 16,1%.

CENÁRIO 3: Jair Bolsonaro 19,7%, Marina Silva 15,1%, Ciro Gomes 11,1%, Geraldo Alckmin 8,1%, Fernando Haddad 3,8%, Branco/Nulo 30,1%, Indecisos 12,1%.

CENÁRIO 4: Jair Bolsonaro 20,7%, Marina Silva 16,4%, Ciro Gomes 12,0%, Fernando Haddad 4,4%, Henrique Meirelles 1,4%, Branco/Nulo 31,7%, Indecisos 13,4%.

A pesquisa testou ainda 16 cenários de segundo turno. Eu os reproduzo abaixo. Poucas hipóteses fazem sentido. E as que fazem não são nada alvissareiras. Lula continuaria a vencer seus opositores com os pés nas costas, como se diz. Bateria Alckmin por 44,9% a 19,6%; Bolsonaro, por 45,7% a 25,9%, e Marina, por 44,4% a 21%. Já nesses casos, os índices de branco e nulos são enormes, variando de 23,3% a 29,3%. Estes chegariam a ser explosivos sem o petista na disputa. Querem ver? Bolsonaro ficaria tecnicamente empatado com Ciro: 28,2% a 24,2%, mas os votos inválidos chegariam a 37,8%. Poderiam saltar para 42,5% se o candidato do PSL enfrentasse Alckmin, que perderia por 20,2% a 27,8%. Marina e o militar reformado empatariam em rigorosos 27,2%, mas a montanha de brancos e nulos somaria 37,8%

Seguem em azul todas as simulações. Volto em seguida.

CENÁRIO 1: Lula 44,9%, Geraldo Alckmin 19,6%, Branco/Nulo: 30,0%, Indecisos: 5,5%.

CENÁRIO 2: Lula 45,7%, Jair Bolsonaro 25,9%, Branco/Nulo: 23,3%, Indecisos: 5,1%.

CENÁRIO 3: Lula 47,1%, Henrique Meirelles 13,3%, Branco/Nulo: 33,0%, Indecisos: 6,6%.

CENÁRIO 4: Lula 44,4%, Marina Silva 21,0%, Branco/Nulo: 29,3%, Indecisos: 5,3%.

CENÁRIO 5: Lula 49,0%, Michel Temer 8,3%, Branco/Nulo: 37,3%, Indecisos: 5,4%.

CENÁRIO 6: Jair Bolsonaro 28,2%, Ciro Gomes 24,2%, Branco/Nulo: 37,8%, Indecisos: 9,8%.

CENÁRIO 7: Jair Bolsonaro 27,8%, Geraldo Alckmin 20,2%, Branco/Nulo: 42,5%, Indecisos: 9,5%.

CENÁRIO 8: Jair Bolsonaro 31,5%, Fernando Haddad 14,0%, Branco/Nulo: 43,4%, Indecisos: 11,1%.

CENÁRIO 9: Jair Bolsonaro 30,8%, Henrique Meirelles 11,7%, Branco/Nulo: 46,3%, Indecisos: 11,2%.

CENÁRIO 10: Marina Silva 27,2%, Jair Bolsonaro 27,2%, Branco/Nulo: 37,8%, Indecisos: 7,8%.

CENÁRIO 11: Jair Bolsonaro 34,7%, Michel Temer 5,3%, Branco/Nulo: 49,5%, Indecisos: 10,5%.

CENÁRIO 12: Ciro Gomes 20,9%, Geraldo Alckmin 20,4%, Branco/Nulo: 48,1%, Indecisos: 10,6%.

CENÁRIO 13: Geraldo Alckmin 25,0%, Fernando Haddad 10,0%, Branco/Nulo: 53,2%, Indecisos: 11,8%.

CENÁRIO 14: Marina Silva 26,6%, Geraldo Alckmin 18,9%, Branco/Nulo: 46,0%, Indecisos: 8,5%.

CENÁRIO 15: Ciro Gomes 25,7%, Henrique Meirelles 9,0%, Branco/Nulo: 52,6%, Indecisos: 12,7%.

CENÁRIO 16: Ciro Gomes 30,4%, Michel Temer 5,6%, Branco/Nulo: 52,9%, Indecisos: 11,1%.

Os investidores botaram o pé no freio, e o cenário começa a ficar perfeito para especuladores. Olhando-se os dados acima, nota-se que os candidatos considerados mais afinados com um estado menos intervencionista não decolaram ainda. O mercado sabe que Lula não será candidato. Na realidade dada, vê Alckmin estagnado e Ciro encostando em Marina, mesmo sem um acordo com o PT.

O pedetista está perto de fechar um acordo com o PSB, o que lhe garantirá mais tempo na televisão do que terão Marina e Bolsonaro. Notem que ele aparece em empate técnico com Bolsonaro no segundo turno. Não há a simulação contra Marina Silva, mas tenho pra mim que não seria difícil ao pedetista bater a candidata da Rede.

Tudo somando e subtraído, a pesquisa está a apontar que, com Lula fora do páreo, e ele está, é Ciro quem está em ascensão, o que torna ainda mais incompreensível a tática adotada pelo PT. Mais um pouco nessa toada, e vai ficar tarde tanto para Lula tentar transferir votos a alguém como para fechar uma coligação com Ciro em condições altivas.

Imprevisibilidade
O que deixa o mercado em polvorosa? A imprevisibilidade, por enquanto, só aumenta. Querem ver? Segundo a pesquisa CNT/MDA, “para 65,6% dos entrevistados, a honestidade do candidato (…) será o principal fator levado em consideração; 47,7% considerarão novas propostas para o Brasil; 26,4%, a trajetória de vida; 12,1%, se o candidato é novo no meio político; 5,9%, o partido político ao qual o candidato pertence, e 3,4%, se ele é do meio empresarial.”

Certo!

Durma-se com um barulho destes: 65,6% dizem que levarão em conta a honestidade, mas entre 44,4% e 49% poderiam votar em Lula no segundo turno. A equação não fecha porque nada fecha quando o país está submetido a um contínuo processo de descrédito da política e das instituições.

Resultado: o crescimento já entrou em marcha-a-ré, as expectativas se deterioram, e cresce a incerteza. Não é por acaso que os especuladores são hoje os maiores entusiastas do lava-jatismo, que é coisa distinta do combate à corrupção. Quanto mais bagunça, melhor. Mais eles ganham com a especulação.

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