Bastidores

Dólar e juros. Por Míriam Leitão

15 de maio de 2018 às 10h02

Ontem o dólar subiu por razões internas: as dúvidas sobre as eleições. Há uma semana houve o aumento da turbulência internacional. Tudo mantém o clima que favorece a volatilidade do dólar que, como já disse aqui algumas vezes, será a marca deste ano. Hoje o Copom começa a sua reunião e a maior probabilidade é de um novo corte, ainda que pequeno, mas que deve ser o último desta série.

O mercado financeiro cria algumas convicções e as repete em suas análises, mesmo quando elas não conversam com a realidade. Quem olhasse dias atrás as projeções para o dólar no fim do ano de diversas instituições, em torno de R$ 3,20, sabia que isso era fruto de uma visão linear, a estranha aposta de que o futuro seria a continuidade do presente. Era obviamente impossível. Ontem o dólar fechou em R$ 3,62, mesmo com a intervenção do Banco Central, e nos últimos dias esses mesmos bancos correram atrás da realidade, mudando os seus cenários para o fim do ano.

Na política, os analistas médios de mercado fazem um raciocínio binário. Haverá candidatos reformistas. Geraldo Alckmin ou Henrique Meirelles. E candidatos populistas. Todos os outros. Por isso, como Meirelles ainda nem sabe se será candidato e Alckmin continuou patinando na pesquisa de ontem, houve mais uma razão para o dólar subir.

A política não é assim tão simples. Há gradações de propostas, riscos e chances entre os dois modelos extremos desenhados nos cenários do mercado. Os programas econômicos dos candidatos ainda não estão definidos. Se for eleito alguém com um partido pequeno, ele ou ela poderá ser bem-sucedido em organizar uma coalizão. Enfim, os riscos reais são outros. O Brasil enfrenta um dos seus piores quadros fiscais e nenhuma das pessoas que se apresentam para concorrer à presidência tem um programa sobre como superar isso. O país está com uma enorme taxa de desemprego e não há qualquer projeto concatenado para enfrentar o problema. Isso é mais concreto do que a dicotomia estabelecida no mercado entre reformista e populista.

O Copom quando se reunir hoje e amanhã para decidir a taxa de juros vai analisar a incerteza interna e a turbulência externa, a alta do dólar e a subida do petróleo, antes de tomar a decisão. Mesmo assim os juros poderão cair? Em outros momentos, não, mas o que o presidente do Banco Central Ilan Goldfajn disse na semana passada, na entrevista que concedeu ao Jornal das 10 da GloboNews foi que é preciso olhar a inflação e a atividade. Olhando os dois, o que se percebe? Há dez meses o índice de preços está abaixo do piso da meta, portanto nem chegou ainda à faixa de flutuação, e as perspectivas também são boas. A taxa subirá um pouco durante o ano pela pressão do dólar e dos combustíveis, mas ninguém teme qualquer perigo inflacionário no futuro próximo. Já o nível de atividade está mais lento do que se projetava inicialmente. Dado após dado, este ano tem sido decepcionante e por isso, quando o IBGE divulgar no fim deste mês o PIB do primeiro trimestre, ele deve ser um número muito fraco. Neste aspecto, a taxa de inflação permite nova redução dos juros, e o ritmo de atividade requer mais estímulo monetário.

Mesmo assim alguns bancos passaram a considerar que a Selic ficará estável, exatamente por causa dessa elevação da incerteza nos últimos tempos. O aumento das tensões causado pela política externa e política comercial do governo Trump vai continuar provocando a oscilação das moedas em geral e a pressão na cotação do petróleo. A dúvida sobre como o Brasil vai enfrentar suas dificuldades econômicas alimentará a alta do dólar e a política de preços de combustíveis vai repassar as cotações internacionais do petróleo para os preços ao consumidor, pressionando a inflação.

Contudo, há mais razões para uma nova queda dos juros hoje. Depois dessa redução, o Banco Central deve avisar que ficará em compasso de espera. Esse terá sido um longo período de redução da taxa de juros. A Selic estava em 14,25% em outubro de 2016. Se houver o corte amanhã, vai para 6,25%. Uma redução de 800 pontos em um ano e sete meses. O que falta é a chegada dessa queda na ponta final do tomador de crédito.

O Globo

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