Opinião

Rômulo, o amigo

13 de Maio de 2018 às 15h32 Por Heron Cid

Raramente escrevo, aqui, na primeira pessoa do singular. Não por estética textual, apenas. No jornalismo, a notícia ou análise é quem precisa brilhar, nunca o narrador, articulador ou repórter.

Fatos como o dessa madrugada justificam quebrar a regra. Mesmo assim, antecipadamente, perdoem-me pela exceção.

Por convicção pessoal e também por comedimento profissional, geralmente evito no trato jornalístico transpor a relação da fonte para a intimidade.

É um escudo de proteção que garante liberdade para comentar sobre tudo e todos, autonomia de certa forma castrada quando ultrapassamos a linha da diplomacia para a amizade. O que não reputo pecado. Ninguém é de ferro, afinal.

Com Rômulo Gouveia foi impossível manter essa distância estratégica. E suponho que, entre os colegas, não seja a minha uma confissão isolada.

Por tantos gestos de solidariedade e atenção, cedi. Rômulo tornou-se para mim um dos poucos entre os políticos com quem partilhava de amizade desprendida.

Quinta-feira passada, às 21h, ele espontaneamente me liga para contar como estava atravessando sua internação e o tratamento de infecção urinária na Clínica Santa Clara.

E confidenciava que, para um sujeito irrequieto feito ele, era um martírio ficar parado contando as horas. Como antídoto, confessou, diminuía a aflição ouvindo rádio e ligando para os amigos, tal qual fazia naquela hora da noite comigo.

Sua alta, informava, seria no sábado. No domingo, hoje, já queria estar no batente, visitando municípios, abraçando lideranças e comparecendo a eventos, uma praxe em toda sua jornada.

O dia amanheceu, mas familiares, correligionários, amigos e admiradores já não puderam dispor da vibração de sua energia. No lugar do calor humano inconfundível, a fria e desoladora notícia da sua precoce partida.

Muitos, com mais propriedade e conhecimento de causa, falarão de sua vitoriosa trajetória. De líder comunitário a governador em exercício e vários cargos legislativos no currículo.

Pessoalmente de luto, cumpre-me falar do homem bom, do cidadão generoso, do amigo solidário. Aquele que – mesmo sem grande intimidade – ao saber do AVC e internação no Trauma de Campina Grande de minhã mãe-avó, dona Nuita, cedeu, sem pedido, um apartamento seu em Campina para nossa família. Só pra citar um exemplo e não falar de bate-papo, confidências e desabafos.

Um apoio na hora de fragilidade e agonia difícil de esquecer. Ainda assim, Rômulo nunca relembrou, pediu um voto ou cobrou qualquer reciprocidade. Nem quando às vezes poderia se sentir atingido por alguma abordagem ou notícia com viés negativo.

Isso, porque sabia, como poucos, que o bem se faz sem fatura de retorno. E amizade verdadeira – sua especialidade e marca maior – não tem preço, não se compra e nem se vende.

Tenho absoluta certeza de que sou um entre muitos contemplados pela largura de gestos desse campinense, grande de tamanho e de coração, que a Paraíba aprendeu a admirar e gostar.

E nenhuma dúvida tenho de que, nesta hora de dor, sou apenas um no meio de uma enorme multidão – de autoridades à pessoas simples do povo – que se despede daquele a quem que se podia chamar de amigo. Meu amigo, Rômulo José de Gouveia!

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