Bastidores

Mesmo morta, seguem atirando sobre o seu corpo. Por Gregório Duvivier

19 de Março de 2018 às 09h59
Carro crivado de bala transportava vereadora Marielle Franco

Estão tentando politizar a morte de Marielle, diz o deputado, a desembargadora e os abutres de plantão. Marielle morreu como morrem todos e todas, dirão. Podia ser meu filho, podia ser o seu. Estão fazendo palanque em cima de um caixão.

A violência assola o país inteiro e nos iguala a todos, disseram, e é por isso, pra evitar a morte de mais Marielles, que precisamos de mais intervenção, chegaram a dizer.

Procuraram fotos dela com bandidos, porque afinal quem anda com bandido merece morrer. Não acharam nenhuma foto dela com bandidos, mas encontraram uma foto de uma mulher negra no colo de um homem, e disseram que era Marielle no colo de Marcinho VP.

E a classe média, indignada com aquela morte absurda, até então sem explicação, respirou aliviada: ah, ela era mulher do Marcinho VP, ufa, tá explicado. A mulher da foto sequer se parece com ela, assim como o homem sequer se parece o Marcinho VP. Mas a mulher é negra, se não é ela, é sua prima. Muita gente aceitou.

A postagem do MBL tem mais de 30 mil compartilhamentos em um dia –e não para de crescer. Multiplicam-se áudios vazados no WhatsApp –alguns supostamente da própria Marielle. “Isso é coisa do Comando Vermelho”, diz um suposto expert, explicando-se em seguida: “os bandidos usavam chinelo”. Elementar, meu caro WhatsApp.

Estão tentando despolitizar a morte de Marielle. Não bastasse matá-la, agora tentam diluí-la. Despolitizar Marielle equivale a matá-la outra vez, e de uma maneira igualmente cruel. Todos aqueles que responsabilizam, mesmo que indiretamente, Marielle pela sua execução têm as mãos sujas de sangue.

Toda execução de um político é um ato político: junto com o representante, querem matar tudo aquilo que ele representa. Marielle passou a vida lutando contra o feminicídio, a guerra às drogas, a desigualdade, e sobretudo o genocídio da população preta e pobre. Não tratar a morte de Marielle como parte desse genocídio é desrespeitá-la.

Pedir mais intervenção militar usando seu nome é ultrajá-la. Sua morte não antecede a intervenção. Sua morte é consequência da intervenção, logo não pode ser sua causa. Não podemos deixar Marielle morrer duas vezes.

Mataram pra silenciar seu grito. Não funcionou. Sua voz ganhou o país inteiro. Foram buscar munição pesada. Não sossegam. Mesmo morta, continuam atirando sobre o seu corpo.

Folha de São Paulo

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