Bastidores

Após um mês de intervenção, Temer não consegue dizer de onde vem dinheiro. Por Josias de Souza

19 de março de 2018 às 09h26
Michel Temer com ministros em análise sobre intervenção (Foto: Alan Santos

Das várias maneiras para um governo atingir o desastre, o populismo é a mais traiçoeira, a falta de planejamento é a mais segura e a ausência de dinheiro é a mais rápida. Na intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, Michel Temer conseguiu unificar os três flagelos. Há um mês, vendeu a ilusão de que derrotaria o crime organizado armado apenas de um plano feito em cima do joelho. Neste domingo, após reunião do presidente com um grupo de ministros, o governo informou que precisa de mais uma semana para dizer quanto vai gastar e de onde vai tirar o dinheiro.

Na semana passada, abalroado pela notícia sobre o duplo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, Temer declarou que os criminosos “não destruirão o nosso futuro; nós destruiremos o banditismo antes.” Alguém que, mergulhado no insolúvel, continua a dizer coisas definitivas sem definir as coisas ou é um cínico ou é um desesperado. E em nenhum dos casos é um presidente à altura do drama da segurança pública. Temer age como se considerasse que a fantasia é uma opção preferível ao caos —ou ao Pezão, que muitos acham que é a mesma coisa.

O improviso de Temer produziu uma conjuntura crivada de excentricidades. Ao intervir apenas na segurança e não em todo o governo fluminense, o presidente fez de Luiz Fernando Pezão, seu companheiro de PDMB, um ex-governador no exercício do cargo. Ao colocar o Exército na rua sem suprimento$ na retaguarda fez do interventor Braga Neto um general sem intendência. Ao criar um Ministério da Segurança sem dotá-lo de orçamento, tornou Raul Jungmann um ministro extraordinário de uma pasta-fantasma.

Estiveram com Temer no Palácio da Alvorada os ministros Dyogo Oliveira (Planejamento), Moreira Franco (Secretaria-Geral), Torquato Jardim (Justiça), Raul Jungmann (Segurança), Eliseu Padilha (Casa Civil) e Sérgio Etchegoyen (Segurança Institucional). Coube ao titular da pasta do Planejamento fazer as vezes de porta-voz do nada.

“Acho precipitado adiantar valores, porque os números estão sendo fechados”, disse Dyogo Oliveira, escancarando a improvisação. Busca-se dinheiro para bancar a intervenção e verba para custear a pasta da Segurança. “A soma dos dois é na casa de bilhão”, acrescentou o ministro. Noutro instante, Dyogo foi impreciso no plural: a coisa toda chegará a “alguns bilhões”, disse o chefe do Planejamento do governo cujos planos costumam ter uma profundidade que pode ser atravessada por uma formiga —com água pelas canelas.

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