Bastidores

A marcha da irresponsabilidade e o triunfo da morte. Por Reinaldo Azevedo

19 de março de 2018 às 09h32
“O Triunfo da Morte”, de Pieter Bruegel, o Velho

A exploração que se faz da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) é das coisas mais asquerosas que vi desde que acompanho política. Virou um emblema de todos os pensamentos tortos que infelicitam o país. Nunca, do ponto de vista dos criminosos, um assassinato foi tão bem-sucedido. Aquele que puxou o gatilho e a alvejou quatro vezes estava também abrindo a Caixa de Pandora das imposturas. Nunca o crime organizado escolheu uma vítima com tanta precisão e inteligência. A precisão e a inteligência do mal, que alimentam o festim diabólico do capeta.

Sim, há estupidez para todos os gostos. É uma pena que não se possa chegar ao primeiro delinquente que postou a foto de um casal como se fosse de Marielle em companhia de Marcinho VP. Os dois nunca tiveram um relacionamento amoroso. Era notícia falsa, “fake news”. A extrema-direita aproveitou para fazer barulho e para expelir boçalidades, o que só açula a disposição das esquerdas de carregar o corpo simbólico de Marielle como se fosse um troféu.

Morreu porque era negra? Morreu porque era mulher? Morreu porque era lésbica? Morreu porque era socialista? Morreu porque era favelada? Não! Morreu porque seus assassinos, certamente contrários à intervenção, distinguiram nela o alvo perfeito. Constatar tal evidência, à diferença do que dizem os papa-defuntos, não corresponde a culpar Marielle por sua própria morte. Não fosse ela esse alvo perfeito, seria outra pessoa. Era preciso mandar o recado.

Logo na minha primeira manifestação a respeito, observei que se tentaria usar o evento trágico para recriar a baderna de 2013, que, já escrevi isto aqui tantas vezes, foi deflagrada pela extrema-esquerda. E, curiosamente, os extremistas vermelhos estão na raiz, ora vejam!, da queda de Dilma Rousseff. Não custa lembrar: a desordem começou, então, em São Paulo, sob o olhar cúmplice do governo federal petista, que, inicialmente, silenciou sobre a violência dos manifestantes, e preferiu atacar a Polícia Militar do Estado. O objetivo era o governo Alckmin. Aquele tiro saiu pela culatra.

E desta vez? Vamos ver o que vão conseguir os companheiros e camaradas. A verdade é que, à diferença do que dizem os exploradores de defuntos, a agenda de Marielle era minoritária quando confrontada com o que pensa a população. A leitura política que ela fazia dos mais de 6.300 assassinatos havidos no Estado em 2016 não coincide, em absoluto, com a percepção que tem a maioria da população — e isso inclui as mulheres, os negros, os favelados… O apoio à ação federal é maior entre os mais pobres.

Marielle não era uma crítica novata da violência policial ou da ação de forças federais no Rio. Por que matá-la agora? Porque era preciso conturbar o ambiente para tentar pôr fim à intervenção. Não vai acontecer. Mas é claro que isso põe o governo sob pressão.

Mais uma vez, as esquerdas e setores da imprensa brincam com fogo. Qualquer pessoa sensata, a esta altura, receia que aqueles que foram tão bem-sucedidos no investimento sanguinolento que fizeram, dada a gritaria insana que objetivamente colabora com o banditismo — seja o narcotráfico, as milícias ou a parcela bandida da polícia —, resolvam dobrar a aposta. O Brasil não é a Colômbia de Pablo Escobar, mas certamente as franjas do crime abrigam homicidas compulsivos daquela espécie. O facínora ficou famoso por sobrepor um atentado a outro, de modo a mostrar, afinal, quem estava no controle.

E, nestes dias pós-morte de Marielle, nós já lemos e ouvimos de tudo. Os mais desavergonhados não têm pejo nem mesmo de aproveitar o assassinato para resgatar a sua militância em favor da discriminação das drogas, já que, segundo os perturbados, tudo isso decorreria da ilegalidade das ditas-cujas. Claro! Com a legalização, os criminosos iriam procurar emprego honesto, não é mesmo?

Não! Marielle não é culpada por sua morte. Os culpados são os assassinos. Mas parece que há humoristas do sangue alheio dispostos a encontrar também os responsáveis morais. Nem é preciso procurar muito. Estão entre aqueles que constituem o lado da demanda de que traficantes são a oferta. Essa perversa lei do mercado não se esgota no bem-estar do consumidor e no lucro do fornecedor. Essa relação produz cadáveres.

“Ah, mas o certo é legalizar”. Digamos que fosse. A maioria da sociedade tem de ser convencida disso, segundo os mecanismos oferecidos pela democracia. Enquanto isso não acontecer, integrar ou não a cadeia do crime é uma escolha moral.

De resto, noto: em 2006, para a Justiça eleitoral entrar na favela da Maré, no Rio, que Marielle conhecia bem, foi preciso apelar a blindados da Marinha porque o narcotráfico havia decidido que tomaria conta das urnas…

É a esse tipo de “liberdade” que estão submetidas outras pessoas também pobres, também negras, também faveladas, eventualmente homossexuais ou socialistas… Trata-se de uma esmagadora maioria que disse “sim” à intervenção e que é contrária à legalização das drogas porque conhece as leis do crime organizado. E não como consumidora de droga. E não como fornecedora de droga.

São dias vergonhosos estes!

Acho, se querem saber, que a esquerda será malsucedida de novo em sua insanidade. “Ora, Reinaldo, então não reclame!” É que meu ponto é outro. Esse embate distorcido, ensandecido e oportunista degrada o país um pouco mais. E põe os criminosos no controle do debate e até da agenda.

Nunca, para eles, matar foi um argumento tão convincente.

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PONTO DE INTERROGAÇÃO
No acordo da base girassol, quem cederá? Adriano Galdino ou Buba Germano?
NÚMERO

R$ 500 mil

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