Opinião

O desabafo do bispo e o outro lado da moeda

18 de fevereiro de 2018 às 12h01 Por Heron Cid
Secretário de Segurança Pública replica reclamação do religioso: "Não estamos entregues ao Deus-dará"

O espontâneo e isento grito do bispo de Campina Grande, Dom Dulcênio Fontes, continua ressoando Paraíba afora feito barulho estridente de sino de igreja.

Embalado pela campanha da fraternidade, o clérigo cobrou mais segurança para Campina, cidade entregue ao “Deus-dará”, no seu dizer.

Pela força de sua crítica/apelo, o debate sobre a violência foi reacendido. Sem filiação partidária, nem envolvimento político, e há poucos meses na Paraíba, não coube nele a repetida estratégia governamental de desqualificação do autor do desabafo.

No máximo, contraditá-lo, respeitosamente, com dados e aproveitar para reafirmar “avanços” da segurança pública no Estado.

É o que fez em carta ao Blog, neste domingo, o secretário Cláudio Lima, técnico e gestor a quem reputo equilíbrio, bom senso e compromisso na sua ácida missão de botar a cara pra bater na pasta mais delicada do Governo.

Antes de integrante do Governo, Cláudio Lima é um servidor de carreira da Polícia Federal. Não é alguém que precisa bater continência a quem quer que seja para garantir sua feira.

É, portanto, uma personalidade a quem se deve respeito e um homem com expertise na área que abraçou como ofício.

Na sua manifestação aqui, espaço que – modéstia à parte – impulsionou ao noticiário o brado do bispo, Cláudio Lima traz uma reflexão ponderada e pertinente.

Contesta os argumentos do bispo, sem perder a elegância e o tino no trato de um tema que varia entre complexo e urgente.

Inteligentemente, Lima faz um comparativo do quadro paraibano com o  do Estado das Alagoas, origem última de dom Dulcênio antes de desembarcar por terras tabajaras.

E exorta a sociedade a repensar valores e conceitos, caminho igualmente importante na construção de um ambiente de paz.

Vale a pena ler a ponderação do secretário de Defesa Social da Paraíba, endereçada ao Blog, porém com uma certeza: só palavras não diminuirão o medo das pessoas nas ruas e casas.

“O tema da violência, sem sombra de dúvida, será a grande e permanente manchete dos dias atuais e por muito tempo, principalmente, neste ano em que as disputas políticas, propostas e promessas desembocarão no campo da segurança pública, pois há motivos para isso, tendo em vista que o descaso de décadas vividos no Brasil
no campo da segurança pública atingiu um patamar totalmente absurdo.

Terminamos o ano de 2017 com mais de sessenta mil homicídios no País, além uma preocupante e audaciosa ação de grupos criminosos ou facções de várias denominações que agem a partir de um sistema penitenciário caótico em todo o Brasil, um sistema de contenção da criminalidade lento e favorável à impunidade, além de outras causas relacionadas com poucos investimentos, a falta de políticas públicas de prevenção e uma enorme desigualdade social.

Os Estados do Nordeste, neste tema, na sua maioria, passam pelo momento mais preocupante das últimas décadas, principalmente os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas, este último de onde veio o Bispo Dom Dulcênio Fontes. Lá  a taxa de homicídio ainda é 56,6 homicídio por grupo de cem mil/hab, nos demais Estados do Nordeste a taxa está em escala crescente.

Ao contrário desta crescente curva do Nordeste, a taxa atual da Paraíba é de 31,9 , CVLI/ cem mil/hab. Cabe lembrar que no início da gestão, em 2011, a taxa na Paraíba era de 43 homicídios por grupo de cem mil Hab, portanto, verificamos que o Estado  de Alagoas, mesmo depois dos programas federais e ajuda da Força Nacional de Segurança naquele Estado, ainda tem uma taxa 77% acima da taxa da Paraíba.

Mencionei os dados acima apenas para demonstrar que, embora recebendo com o devido respeito às críticas do Buspo, afirmo que a Paraíba não está na situação de “Deus- Dará” e nem à beira do caos.

Na realidade estamos reduzindo os homicídios há seis anos. Encontramos, sim, uma curva que vinha crescendo há mais de uma década e, nos anos de 2008 e 2009 o crescimento  foi na ordem de quase 25% ao ano, uma estrutura totalmente caótica, e uma gestão por empirismo.

Então, enquanto outros Estados vizinhos, infelizmente, vêem o crescimento da criminalidade em elevada progressão aritmética, rebeliões preocupantes no sistema prisional, domínio de facções e perda de controle, a Paraíba, ao contrário, tem conseguido atravessar todas estas tempestades sem rebeliões e em uma vigilância constante e de relativa paz, se fizermos comparações  com os demais entes federativos da região, além do mais, diminuiu nos últimos anos, quase todos os seus índices criminais, conforme anuário publicado na página do Governo, mesmo sabendo que qualquer Estado sofre influências regionais positivas e também negativas como é neste caso, a Paraíba foi chamada de ” ilha” pelo General Santos Cruz, Secretário Nacional de Segurança Pública, quando nos visitou durante o seminário do SENABOM , no final do ano passado.

Dessa forma, mesmo reconhecendo que não estamos em situação ideal, acredito que o Bispo Dom Dulcênio não tem conhecimento do trabalho da segurança na Paraíba, razão pela qual não concordo com parte do seu pronunciamento.

Devemos reconhecer que a campanha da CNBB tem papel fundamental na propagação de valores como igualdade, fraternidade e justiça, valores estes que também humildemente temos procurado inceri-los no contexto do Programa de Segurança que o denominamos de Paraíba Unida Pela Paz, que tem com bem jurídico maior a preservação da vida.

Por esta razão, defendo esse trabalho sério que há sete anos estamos procurando construir em nosso  Estado e nessa área tão esquecida da Segurança Pública, onde tem sido campo fértil para críticas, cobranças e palpites mas de poucos reconhecimentos e poucos investimentos. Para alguns pensadores e formadores de opinião, acaba sendo apontada como responsável por um problema tão sério e complexo como é o caso da violência.

Por fim e apenas para uma reflexão: será que se nós procurássemos e voltássemos a investir no ser humano e em valores da família, valores espirituais do amor, educação de qualidade, honestidade, igualdade e justiça teríamos um um bom resultado a longo prazo? Certamente.

Mas a curto prazo, com os mesmos valores, se todos nós, sem o viés político partidário, procurarmos unir forças e os entes de todas as esferas de poder, cada um fizer a sua parte e obrigação constitucional,  investirem em segurança pública como política social prioritária, será que não teríamos também resultados positivos.

É como penso.”

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