Bastidores

O caso Tifanny: como definir identidades sociais? Por Leandro Narloch

14 de fevereiro de 2018 às 09h50
Transexual disputava no masculino até os 28 anos e agora compete entre mulheres; situação gera questionamento entre atletas

O caso Tifanny: como definir identidades sociais? Por Leandro Narloch – Eu, presidente da República, faço saber que a partir de amanhã deixarão de vigorar todos os impedimentos ao livre comércio internacional, assim como a proibição da maconha, do lança-perfume e dos cigarrinhos Pan de chocolate. Decreto ainda o fim do monopólio do Banco Central de emissão de moeda e determino que o Imposto de Renda e demais tributos sejam facultativos.

O leitor deve estranhar esse anúncio —não só pelo radicalismo das medidas, mas porque, bem, dizem por aí que o presidente da República é um outro cara.

Pois saiba que isso me machuca e ofende. A identidade que escolhi para mim é esta. Não me sentia bem na pele de escritor e, após muita reflexão, decidi me libertar das amarras sociais e adotar a identidade que sempre quis, a de presidente da República. Da França, é claro —é meio cafona ser presidente do Brasil.

Não sejam opressores e não me pressionem a aceitar um papel social no qual não me encaixo. Doravante me chamem de “Monsieur le ​Président”, por favor.

Os parágrafos acima soam como pura maluquice porque o fato de eu me identificar como presidente francês não obriga as pessoas a me levar a sério. Identidades, assim como a reputação ou o efeito da linguagem, são “semi-alheias” —não dependem apenas da vontade do indivíduo. Como os próprios pós-modernos dizem, identidades são construções sociais.

Também é assim com a identidade de gênero. A ideia de que “há tantos gêneros quanto indivíduos no mundo” soa bonito na boca de palestrantes dedicados ao exibicionismo de virtude. Mas é falsa.

Um sujeito tem todo o direito de se considerar “não-binário” ou “pangênero”, mas seria loucura obrigar os outros a entendê-lo ou a acreditar nessas definições. É divertido, por exemplo, ver o cartunista Laerte se vestir de mulher —já querer que as pessoas achem normal ele usar o banheiro feminino é chatice. Pois parece evidente que ele é apenas um homem vestido como uma senhora.

Tifanny Abreu, a jogadora de vôlei, se identifica como mulher. Como foi homem até os 28 anos e chegou a participar de torneios masculinos, tem crescimento ósseo e muscular de homens. Outras atletas podem achar que estão em desvantagem na quadra —e não há necessariamente preconceito nesse questionamento.

Perdemos o que o debate tem de mais interessante —a dificuldade em determinar certas identidades sociais— quando acusamos de intolerância quem questiona a feminilidade de Tifanny.

É claro que a autodefinição importa para a identidade de gênero ou de etnia. Por exemplo, um garoto loiro de olhos azuis criado por uma família negra pode se considerar mais negro que branco. Do mesmo modo, é compreensível que um negro criado por uma família branca ache que sua identidade é incompatível com a cor da pele.

Mas mesmo nesses casos, a identidade é socialmente negociada. Precisa ser debatida e reconhecida pelos outros. Se não for assim, teremos que levar a sério qualquer maluco (além dos atuais) que acreditam ser presidentes da República.

(Na Folha)

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