Bastidores

Risco Lula nunca foi socialismo, mas capitalismo de Estado. Por Reinaldo Azevedo

13 de novembro de 2017 às 10h32
Lula e Bolsonaro, os extremos

Então o tal “Osmercáduz” pisca para Bolsonaro, conforme escrevi aqui? Ah, esse ser estranho, que dá pinta a cada eleição, já foi fanaticamente lulista, sabiam? Sim! Eu mesmo cheguei a ter uma conversa algo azeda com esse tal “Osmercáduz” porque apontei: ao mesmo tempo em que o PT adere ao credo do mercado, constrói uma estrutura de poder autoritária, que corrompe o Estado, e é pensada para se eternizar. Sabem o que ouvi como resposta? Se o partido cumprir as regras do livre mercado, que mal haveria nisso? Segundo o gênio que então falava comigo, político é mesmo tudo igual, e era preciso ter alguém que respeitasse as regras de… mercado.

Em certa medida, no que pode haver de absolutamente negativo na comparação, Bolsonaro guarda, sim, semelhanças com Lula. Este abjurou de teses históricas do partido com a tal “Carta ao Povo Brasileiro” em 2002. Foi escrita com dois propósitos: 1) se o PT vencer, não haverá calote da dívida interna nem 2) desrespeito a contratos firmados pelo Estado. O objetivo era frear a especulação. E Lula cumpriu aqueles termos. E, NOTEM, SE ELEITO, OU O SEU PARTIDO, SERIAM CUMPRIDOS DE NOVO.

O risco de Lula, e eu o adverti centenas de vezes, não era instituir o socialismo no Brasil, mas levar adiante um processo de corrosão dos valores liberais, da institucionalidade, da cultura democrática. E isso ele fez com dedicação e zelo. Convenham: ninguém corrompeu — no sentido de PERVERTER — tanto a economia de mercado como o PT, tornando mais agressivos todos os seus vícios e mitigando todas as suas virtudes. Parte importante da corrupção, agora no sentido vulgar mesma, originou da decisão de Lula de criar os grandes “players” da economia, segundo a lógica do capitalismo de Estado.

Quando “Osmercáduz” percebeu que o PT não queria acabar com ele, mas se tornar seu sócio, todos deram risos de felicidade e se conformaram logo à nova situação. E Lula passou a ser considerado um mago. Quem não cansou de ouvir elogios ao realismo do então presidente, vindos de banqueiros e de potentados do capital, alguns deles agora querendo brincar de antipetismo radical?

O problema de Lula eram os valores que encarnava, que nos empurravam para trás, em vez de nos preparar para um novo ciclo de desenvolvimento. Com ele, a metáfora do crescimento foi o voo do supergalinha: durou um pouco mais, mas o bicho se estabacou. Dada a má tradição do Estado brasileiro, a gestão lulista foi mediana. A questão é saber para onde nos conduziram suas escolhas de longo prazo. A crise que se abateu sobre o país, com a maior recessão da história, diz isso com todas as letras. Dilma Rousseff, a personagem acidental do demiurgo, não inventou nada. Ela só não soube sair da armadilha. Não que a percebesse: ela dobrou as apostas erradas do lulismo: mais gastos, mais subsídios, mais desoneração, mais intervenção artificial em preços como juros e tarifas… O resultado é conhecido.

Como todo mundo sabe, eu nunca temi o Lula socialista. Até porque não existe. Isso é papo-furado de anticomunistas profissional, que batem a carteira de empresários mais ignorantes do que eles próprios, ameaçando-os com supostas grandes conspirações. Eu sempre repudiei, aí sim, o Lula do capitalismo de Estado; o Lula que fez o Estado sócio de empreiteiras, de petroquímicas, de empresas de telefonia, de frigoríficos…

Enquanto Lula operava esses prodígios, vejam vocês, o petismo exercitava, com desenvoltura ímpar, o discurso do ódio a tudo aquilo que não atendia à pauta do partido e das ditas “minorias” que a legenda mobilizava. A corrosão dos valores democráticos, em nome da tolerância, caminhava junto com a agenda de tomada do Estado, tendo setores do mercado como parceiros. Foi assim que se engendrou um sistema que só foi à breca NÃO PORQUE A LAVA-JATO RESOLVEU DESTRUIR O PT. O lava-jatismo só progrediu porque o regime petista de gestão do Estado entrou em colapso.

De volta
E agora o tal “Ozmercáduz” me vem falar de Bolsonaro? Lula, ao menos, tinha um partido grande a lhe garantir interlocução no Congresso. O ex-militar destrambelhado nem isso. A negociação com o Parlamento teria de começar do zero, tendo no comando um líder, Deus Meu!, de viés carismático, que não preparou seu exército para defender a pauta liberal, mas para caçar tarados e dizer boçalidades anticomunistas cuja extensão ele próprio desconhece.

Se “Osmercáduz”, ou parte dele ao menos, acha que isso representa um risco menor do que Lula, então é bom que se apresente. A primeira coisa que você deve fazer é identificar esses agentes e manter o seu dinheiro bem longe deles. A razão é simples: são uns imbecis!

Sintetizo: hoje, o risco de um petista vencer a disputa é bem maior do que o de dar Bolsonaro na cabeça. Isso uma coisa. Mas cabe outra pergunta: quem representaria um risco maior para o país? Qualquer não bolsonarista que saiba fazer, digamos, contas histórias, responderá o óbvio: Bolsonaro!

Oh, sim, ele tentaria seguir, se eleito, as regras do mercado. Ajoelhar-se-ia no milho. Ocorre que terá de satisfazer a sanha e a sede de seus justiceiros de meia-tigela. A questão é saber quem faria apostas de longo prazo num “líder” com essas características. A resposta é óbvia, não?

“Isso é uma declaração de voto, Reinaldo?” Não! Um eventual segundo turno entre Lula (ou um escolhido seu) e Bolsonaro, e eu não votaria em ninguém. Sim, acho que é um imperativo ético o compromisso com o mal menor. Se notaram bem, eu estou falando do MAL MENOR. No caso em tela, seriam ambos MALES MAIORES, ainda que distintos. Distintos, mas combinados. Autoritarismo estatista ou desordem? Nenhum!

E não é só jogo de palavras, não! Não estou me referindo a ordens de grandeza; trato do que cada um deles representa de essencial.  E, pela primeira vez desde que sou eleitor, eu anularia convictamente o meu voto.

Pena não haver mais a possibilidade de a gente mandar um recadinho na cédula. Escreveria: “Olhe a cagada que a Lava Jato fez!” E perguntaria a alguns procuradores e juízes se estão satisfeitos com a sua, literalmente, grande obra.

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